30.8.04

Arrumações

É como se o mundo exterior não existisse neste dia. Apenas ecos de pessoas, emoções, imagens, enchem a casa ao domingo. É o dia da semana que melhor se ajusta à tarefa das arrumações. E, no entanto, com dupla valência, a de retirar objectos de caixas, armários, gavetas e arrumá-los de novo, reordená-los, transportá-los até para outros espaços. É como uma revisitação interior.
Superficiais, por vezes, inexistentes em muitos domingos mas densas quando se trata de grandes arrumações de finais de estação. Têm aquele sabor de redescoberta de rostos, texturas e cores adormecidas durante longos meses, anos. Ganham um brilho novo, diferente significado ao serem retirados, desdobrados e sacudidos à luz de um olhar que já se imbuíu de novas tonalidades pelo devir do tempo.
E é aquele cobertor, fofinho e macio que nos aqueceu momentos de tranquilidade, é o postal de um local qualquer, cheio de palavras esmaecidas mas de que não podemos desligar-nos, é o livrinho de apontamentos quotidianos de um tempo que já nos faz sorrir, é o lenço de bordado fino, tecido com risos de criança, é o pequeno frasco de perfume que guarda ainda o aroma da adolescência, enfim, são as memórias de tanta coisa acompanhando a escadinha que descemos ao longo da vida.
Ontem foi assim. A casa abrigou-se do exterior, flutuou no tempo e encheu-se de vozes e passos, há muito esquecidos.

29.8.04

Amanhecer


[Francisco Botelho, S.Petersburgo]

Rasgando a névoa nocturna , a cidade desperta. Lentamente. Os edifícios despem as sombras e revestem-se de tons suaves, como a madrugada. Altaneiras, torres e cúpulas avivam tons dourados que o sol irá cobrir, lançando o som harmónico dos seus raios. E o céu, quebra mansamente o seu silêncio nos rosados diáfanos da Aurora, acreditando na promessa de um novo dia.

Anoitecer


[ Francisco Botelho, S.Petersburgo ]

O dia estremece, esconde-se. O som da noite anuncia-se em plenitude de cores fúlveas riscando o espaço. Os últimos reflexos do sol recolhem-se na longa espiral quase tocando o céu. A melancolia desce sobre a cidade.

Jogos palacianos


[Francisco Botelho, Peterhof ]

Jogos de água, espectaculares, para deslumbrar a corte e os seus jogos palacianos. Preciosidades de épocas douradas dos czares.

35, tem?


Só temos a partir do número 36, é, geralmente, a resposta que obtenho. Os sapatos, a difícil compra de sapatos.
O olhar passeia pelas montras habilmente dispostas para cativar os pés femininos. Mas, no meu pé só serve o sapato que o príncipe não encontrou e a cinderela não perdeu. É a desvantagem de ter nascido em dias pequenos, aqueles, friorentos, que antecedem a chegada do Inverno e em que os gnomos se divertem a pregar partidas. Quando nasci, algum deve ter-me escondido no mundo de Liliput e apostado em transformar-me nalguma criatura dos bosques. Mas é na cidade que vivo e é nos seus espaços que a minha busca se efectua.
Raramente encontro o número que me serve na forma que me encanta. Quando isso acontece quase gostaria de transformar-me na personagem de Andersen e desejar que os sapatos se me colassem aos pés, eternamente, como na história. Deve ser por isso que a minha busca não me dá descanso, nunca termina. E assim, continuo a tentar atrair, não o amado como as wallies, nem os "sapatinhos vermelhos" da bailarina da história, apenas uns sapatos cómodos e elegantes que me sigam no meu sonho.

28.8.04

Imperfeição


[ Rodin, Le Jardin des Supplices ]

E falta sempre uma coisa,
um copo, uma brisa, uma frase,
E a vida dói quanto mais se goza
e quanto mais se inventa.

(Álvaro de Campos)

27.8.04

Os palácios dos czares


[Francisco Botelho, Peterhoff ]

O olhar do Francisco revisita locais de sonho e recolhe imagens belissimas como esta.
O tempo de Ekaterina, a czarina. O tempo de Ekaterina, a Princesinha. Mas o jardim mantém-se, o percurso do olhar abrange os jogos de água, o canal-espelho de água, as belas estátuas, os lagos. E o magnífico verde colorindo o conjunto e a memória.
Obrigada Francisco! Esta será a primeira etapa de uma revisitação do teu olhar que guardarei para a minha Princesinha.

25.8.04

Verosimilhança


[V.Van Gogh, Les blés verts ]

Prefiro que me chames Maria.
Olhar tranquilamente sorridente, de pupila esverdeada, pausa sussurrante, well, you have something shinning on your hair.
Johann, é o reflexo do sol...

A vinha estendia-se, rodeava o pequeno muro em que estavam sentados, enleando as palavras em gestos apenas descobertos. Constante, ininterrupto, o som das cigarras ligava-se ao calor tórrido da tarde plena sem que isso os incomodasse ou beliscasse sequer o prazer de estarem juntos. Ambos sabiam que, findo o Verão, as rotas seriam opostas mas não sabiam que as promessas sentidas e trocadas apenas tinham realidade naquele espaço de mar e campo. Sempre assim fora, depois de seduzir o mar devolvia, saciado, os amores que enredara na sua espuma, que abrigara nas suas grutas.
Mas os dias, nesses dias mais sonhados que vividos, as mãos entrelaçavam as horas e retinham o momento de partir, os pés descalços desconheciam a estrada e tomavam por atalhos em que os risos se encontravam, em que, como uma cascata, a paixão submergia, inundava os corpos e salpicava a alma. Sob o cheiro da macieira, os frutos saboreados no prazer de mordiscar a acidez e a doçura prolongavam o espaço em que o amor se entretecia, em ténues linhas de luz e sol.
E era um delírio de tons de fogo misturando-se aos fios dourados de mechas acastanhadas, tomados de empréstimo ao pôr-do-sol, e a pele, doendo de sal e carícia, parecia arder.

Olhar tranquilamente sorridente, de pupila esverdeada, pausa sussurrante, well, your lips are always red...
Johann, é apenas o sol...

Lembranças são como murmúrio de búzios, fecham-se os olhos, ouve-se o som do mar e sente-se o respirar da maresia.

24.8.04

Leituras de Verão


Só lhe quero dizer isto: guardei os originais dos filmes e diverti-me a transformar as cópias. Cortei, colei, mudei - ela era a estrela, a personagem. E eu o realizador, o cameramen, o produtor, o público - ambos tínhamos todos os papéis.
É fantástico o que se pode fazer com o celulóide, descobri: o tempo andava para diante e para trás, aqui era ontem e depois anos antes, quando a conheci, aqui ela andava de bicicleta, nadava no mar, vinha a correr ao meu encontro, com um pequeno gesto eu fazia a bicicleta andar para trás ou parava-a de repente, ou repetia até ao infinito a sequência em que ela corria ao meu encontro - ela nunca acabaria de correr ao meu encontro, se eu quisesse.
Foi assim que descobri como a gente tem poder sobre as coisas, manipulando-as, deve ser assim que se fazem os filmes verdadeiros e os livros, os livros são uma espécie de filmes, a senhora não acha, só que têm ainda mais poder, porque desde sempre houve palavras mágicas.
E aí é que eu vi a diferença entre saber fazer e não saber, eu manipulava os filmes e as coisas aconteciam ao contrário, a bicicleta corria para trás, mas nada do que eu fizesse podia trazer aquela mulher de volta.

[ Teolinda Gersão, "A dedicatória" in Histórias de Ver e Andar ]


Entre aromas de infância, encantos de maresia e sabores de memórias distantes, fiz espaço, como é meu hábito, para as leituras de férias. Aos poucos, as histórias iam-se construíndo em pausas ensolaradas, repousos frescos na penumbra da casa ou, até, nas noites em que a luz estrelada avivava o gosto de ficar desperta.
Teolinda Gersão é uma das escritoras que me delicia. O primeiro contacto foi, O Silêncio. Os vários tipos de silêncios que nos rodeiam, o mais inquietante aquele que envolve cada um de nós, inacessível ao outro, por muito que se ame, conheça ou se caminhe lado a lado. Cativou-me e, desde aí, rendi-me à sua escrita. Este Verão, para completar outras obras já conhecidas, Os Anjos, Os Teclados, li A Árvore das Palavras e Histórias de Ver e Andar. Neste momento releio Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo. Dele não posso falar ainda. São páginas onde vagueia, quase explode, o sentimento de perda.
Além de Teolinda, li Agualusa, O Vendedor de Passados. E dele, apenas conhecia as suas mãos, de dedos longos, acariciantes. Como as suas palavras.

22.8.04

Lua mentirosa


[S. Botticelli, The Birth of Venus ]

O domingo escoa-se. O cheiro de ervas aromáticas esgueira-se pelas portas e toma conta do silêncio da casa. Na penumbra, a frescura de lençóis acabados de mudar acolhe pensamentos e a transparência da janela deixa perceber luzes que se acendem, lá fora.
Sinto a obliquidade do olhar de Vénus, de Botticelli, a sua doçura derrama-se, desagrega-se da capa brilhante do livro e agarra-se às sombras espalhadas pelo quarto. Não longe, o cache-pot redondo, de vidro negro, reflecte movimentos indistintos, esquecidos no tempo. Contrasta, em colorido, com o rectângulo branco do postal, dividido ao meio pelo desenho de uma caneta de aparo, vermelha, pedindo lembranças na frase traçada a tinta don’t forget to write. O cavalinho de madeira, saído de um qualquer carrocel, faz que saltita apoiado no poste dourado. Até o Cristo que Rosa Ramalho modelou em barro, descansa sem sobressalto.
No céu, a lua ri-se, enganadora. Desenhando a letra oposta, diz que se vai, que se despede, mas vai ficando. É mentirosa, a lua.

20.8.04

Pausa


[Murat, Le Lac de Puchkar ]

Actualmente, a sexta-feira é o dia de maior agrado. Prenúncio de fim de semana, tem o encanto de ser o seu início, sem pressas, sem atropelos. Diria mesmo, a ponte para o nada fazer. O serão mais saboreado, de tempo que ainda falta para o que já se vai passando. Esse, pertence ao domingo, a tarde então é a irritação do fecho semanal.
O sábado, tem o gosto das manhãs prolongadas, entre a quentura dos lençóis e o aconchego da mantinha a convite da madrugada. Nada tem este sabor, de preguiça enrolada ao corpo, o tempo desafiando os ponteiros do relógio, a música adormecendo a pressa de negar o momento de sair. E o café, tomado junto ao rio quando a tarde se anuncia, liberta a réstia de lassidão aninhada no olhar, espraiando-se na superfície brilhante, perdendo-se na distância, alcançando a outra margem.
Ao entardecer, o passeio solitário. Olhos semi-cerrados sorvendo o silêncio carregado de centelhas luminosas. Apenas gaivotas cruzando o espaço, perturbando o pensamento.

De porto em porto


[ Blue, Maiorca ]

Este mar, espreita o porto de abrigo de percursos reunidos. A acalmia das marés levanta vendaval de sentimentos, rasando o horizonte do olhar. Que se encontra noutro olhar.
Na manhã cálida, a brisa rodopia a caruma dos pinheiros, misturando-a ao aroma de carícias. De mãos que se procuram. De corpos que estremecem.
Embaladas pelo sonho, embarcações são manchas brancas deslizando no azul da maresia. E as velas desdobradas, conduzem olhares, mãos, corpos que se buscam, noutros portos sonhados nesses percursos reunidos.

19.8.04

There's something...


[Picasso, Le cheval ]

There’s something in a flying horse,
There’s something in a huge balloon;
But through the clouds I’ll never float
Until I have a little Boat,
Shaped like the crescent-moon.

And now I 'have' a little Boat,
In shape a very crescent-moon
Fast through the clouds my boat can sail;
But if perchance your faith should fail,
Look up - and you shall see me soon! 10

[W. Wordsworth, Peter Bell ( Prologue ) ]

18.8.04

pensive mood


The Daffodils

I wandered lonely as a cloud
That floats on high o’er vales and hills,
When all at once I saw a crowd,
A host, of golden daffodils;
Beside the lake, beneath the trees,
Fluttering and dancing in the breeze.

Continuous as the stars that shine
And twinkle on the milky way,
They stretched in never-ending line
Along the margin of a bay:
Ten thousand saw I at a glance,
Tossing their heads in sprightly dance.

The waves beside them danced; but they
Out-did the sparkling waves in glee:
A poet could not but be gay,
In such a jocund company:
I gazed - and gazed - but little thought
What wealth the show to me had brought:

For oft, when on my couch I lie
In vacant or in pensive mood,
They flash upon that inward eye
Which is the bliss of solitude;
And then my heart with pleasure fills,
And dances with daffodils.

[W. Wordsworth, The daffodils ]

Na outra margem


[ foto cedida]

Referências que gosto na cidade que nada me diz. Outras existem, os moinhos de maré, resquícios de uma antiga fábrica na outra ponta dos três moinhos que olham o rio mas não se movem nas suas águas. Sempre defronte ao Tejo, a parte antiga da cidade guarda velhas construções, com belos gradeamentos, inspirados, decerto, nos desenhos de Blondel. Alguns, depois de recuperados brilham em cores suaves e alegres. E os parques. O mais romântico, ao alcance da largura da rua, bem cuidado, árvores frondosas, lago serpentinado recolhendo, ao centro, uma ilha resguardada por caramanchão de buganvílias. Já a pequena ponte, unindo os espaços, cobre-se de lilases moldando um tecto de perfumes acentuados. Outrora os cisnes habitavam o lago. Os patos de cores matizadas, também. Hoje, as folhas das árvores iludem a ausência. O mais recente, grande, limpo, sem pretensões de estilo, estende-se fora da cidade. Alberga um espaço de exposições de obras de arte. Na cidade que nada me diz, na margem oposta da cidade que amo.

17.8.04

Reencontrando

Galguei distâncias e fui à Baixa à hora do almoço. Apetecia-me rever a Nacional. É a pastelaria, juntamente com a Versailles, que mais gosto na cidade. Além dos bolos, das sandes de frango e das empadas de vitela. E do irresistível bolo-rei.
Acrescentada em pleno século XIX, há um portal que me intriga, posto a descoberto depois de obras recentes, e me parece muito mais antigo . Não as mais recentes, porque, para meu espanto, no espaço do pequeno salão com mesas, contruíram uma escadaria de acesso ao primeiro piso, que eu não conhecia. Devo reconhecer que, sem desvirtuar as pré-existências, ampliou um espaço tão disputado por quem a aprecia. Mas não bisbilhotei o novo piso.
Desci a Rua Augusta, tentada a entrar na FNAC e lá ficar o resto da tarde. Resisti, que coragem! E regressei. A lentidão do quotidiano lembra tempo de férias. O país parece dormir...

Trabalho a sépia

Resolvi mudar o tom do dia. Contrariar o hábito de não substituir as cores de, obstinadamente, manter tonalidades fixas em humores, passos e aromas. É tão fácil, basta um leve balançar da mão como quem agarra o tilintar da colher na face interna da chávena. Mas falha. Folhas, secretária, objectos, chão, tudo tomou coloração sépia. E o cheiro do café, reconfortante em manhã iniciada, seguiu o gesto, expandiu-se em espirais de grão torrado, castanho, vibrante. Desta vez não me escolheu, permaneceu apenas, volátil, na determinação da mudança.

16.8.04

A palavra e o silêncio

Gosto muito de ler os textos de Partilhas. Como gosto de ler muitos outros. Hoje falarei das suas reflexões, outro dia poderei abordar outros espaços. Preciso dizer-lhe da poesia saltitante das suas palavras, da beleza sentida e, por vezes, dolorida, das imagens que tira da alma e expõe perante os olhos de quem a lê. Muitas vezes, emudeço. Quero falar e não consigo. É aquela sensação de profanar o tal "limiar sagrado" de que fala Anna Akmátova e que ninguém deve ultrapassar. Por isso, Partilhas, retira a possibilidade de comentar. E a minha admiração cresce com esse silêncio exigente e exigido. E o meu respeito, também.
Ontem falou sobre o silêncio da palavra e do sentir. Sobre a dificuldade de admitir a saudade. E, por arrasto, a incapacidade de dizer quanto se ama.
De pais e filhos se falava. Disse-se e sentiu-se sobre distanciamentos, gap de gerações, hábitos culturais. Experiências diversas foram confessadas, lamentos e desejos de contrariar, futuramente, o que se vivenciou. Nas gerações futuras.
A minha, não escapou à tal regra distanciada de verbalizar o quanto se ama um filho. Mas o sentimento era sólido, sentia-se nesse silêncio de resguardar, cautelosamente, as emoções. Não por não se cuidar, não se sentir o coração quebrar de preocupação até pela possibilidade prosaica de se magoar um joelho, mas pelo pudor de expor os sentimentos. O ar sério disfarçava o gesto meigo que não se divisando, se esboçara já no coração. Debruçado sobre a atenção cuidada a um rosto febril ou à vigilância severa do prato que devia ficar vazio. Magoaste-te, eu bem te avisei! E a aspereza escondia o sobressalto de uma ferida sangrando. A ternura saltava em catadupa, e encontrava-se nas histórias partilhadas sobre cada personagem da família. Talvez pertença das famílias grandes, o beijo e o sorriso eram divididos a ponto de apenas aparecer a sua sombra. Mas as barreiras construíam-se em protecções sólidas que nos estruturavam ao longo da vida.
Contrariando as aparências, poemas de amor encheram páginas, folhas riscadas em papel fino, amarelo claro, em momentos de separação involuntária. Entre o continente e as ilhas. Mas essas, guardadas pela mãe, furtivamente reveladas quando arrumava a caixinha de madeira, permanecem intactas aos nossos olhos. Por esse respeito ao tal "limiar sagrado". Por essa ausência de comentário que, como Partilhas, nos impusemos a nós próprios.

15.8.04

"down on memory lane"


[A. Mucha, La Plume ]

Duas semanas. Cruzadas por imagens que compõem a manta de retalhos de uma parte da minha vida. Dizem que as palavras são como as cerejas, quando se saboreia uma não se consegue parar. Eu diria que são como as memórias, mal uma se liberta logo as outras aparecem de mão dada numa cadeia infindável. Soltaram-se, deixei que espreitassem o presente, não com saudosismo negativo, nem impossibilitando ou negando o amanhã, mas como momentos saboreados e guardados com carinho. Só assim fazem sentido. E têm um efeito mágico, repõem o equilíbrio quando ele vacila.
Algarve, terreno propício à recolha de lembranças pelas vivências que acompanharam a minha infância e início da adolescência. São referências que criaram raízes, me estruturaram naquilo que hoje sou. Tranquilamente.

12.8.04

A buganvília



Tinha que se construir um canteiro suficientemente fundo para a buganvília criar raízes fortes e suportar a ramagem. Com o tempo, iria cercando as paredes e envolvendo a casa na colorida armadilha da sua floração. Os alicerces despontariam na superfície estreita entre o portão e a faixa exterior do terraço principal. Mas nunca foi plantada e o canteiro não passou de projecto. Por qualquer razão oculta, inexplicável, o pai enfurecia-se sempre que se nomeava a almejada buganvília. E a mãe entristecia mas resignava-se.
Vinha de longe a paixão pelas flores, achou que a herdou da avó que as espalhava em profusão pelos quintais, em vasos, cântaros bojudos e até em velhos alguidares.
A infância, agasalhou-se em tecto amplo, de casa senhorial sem distinções armoriadas, daquelas longas habitações recortadas por escadarias ligando pequenos jardins recolhidos. O espaço superior, derramado em escadinhas de convite ao portão, era o que a mãe enchia de flores em explosões de cor. Longos canteiros delineados nos cantos das paredes, subindo os degraus, acolhiam as rosas trepadeiras, miúdas em tamanho mas repletas de perfume lançado sobre o amarelo vivo sombreado de castanho das estrelas do Egipto, a gipsofila misturada ao azul dos miosótis, as despedidas de verão, os crisântemos, os cravos túnicos e o enorme espaço das hortenses. A roseira branca, soberba pelas pétalas acetinadas, tinha honras de destaque, junto à entrada principal. O pessegueiro, que só dava fruto em anos desencontrados, e a ameixieira amarela, quase bravia e sempre prenhe de vida, protegiam do calor excessivo os dois canteiros maiores, onde se exibiam os gladíolos e as cravinas cheirosas. Até uma estranha alfarrobeira surgia no buraco de um muro, oferecendo as suas vagens adocicadas que gostávamos de mordiscar. O limoeiro, isolava-se noutro espaço, nada impedindo o despertar contínuo dos seus frutos.
As buganvílias surgiram quando o aldeamento se construíu e os campos em volta se desvirtuaram das suas características originais. A mãe, rapidamente se deixou tentar por estas extensões de folhagem semeada de cachos alegres. Imaginava a mistura das cores, combinando o ciclámen ao lilás forte, o branco ao alaranjado entremeado pelo amarelo claro. Mas o pai não se deixou seduzir, a paixão pelas flores não o acompanhava. E a buganvília, namorada pelo olhar, permaneceu sempre no sonho destas paredes que nos abrigam no Verão.
Depois da ausência, pensei concretizar esse sonho acolhendo as buganvílias, mas o sorriso da mãe arrastaria o olhar zangado do pai e destruíria as memórias gratas desse tempo.

11.8.04

O sabor das amoras


"Oh, minha amora madura
quem foi que te amadurou,
foi o sol e a geada
e calor que ela apanhou"


"Avôzinho, que horas são?" e ele sempre respondia, com a determinação sorridente e a certeza da lenga-lenga esperada, "faltam dez réis para um tostão, uma sardinha para um quarteirão e um soldado para um batalhão". Era isso que queríamos ouvir, em fila de palavras certinha, comandada ao som de quem se fizera militar.
Era o avô capitão, de careca contrariada apenas pelo tufo rijo e branquissimo a toda a volta da cabeça. E quando nos dizia, com ar circunspecto, tenho de cortar o cabelo, olhávamos, com espanto, o deserto rosado e macio, ressumando a perfume de cravo, que se anunciava mesmo antes do seu aparecimento nos espaços estivais à beira mar.
Amanhecia com as ultimas estrelas apagando-se no céu, embrenhava-se no meio dos vinhedos e figueiras, colhendo os frutos ainda frescos de orvalho. Mas a grande façanha da fruta, era realizada quando o calor se esbatia na ternura branda do final do dia. A colheita das amoras. Vestia uma velha bata, partilhando as risadas divertidas de todos nós, e de tesoura em punho encaminhava-se para a grande amoreira, seguido por um séquito irrequieto de netada. A que não faltava a avó, com o seu sorriso travesso. Claro, que no regresso a casa, apenas a poucos metros, saltitavam as amoras na grande tijela e as nódoas escuras espalhadas na roupa, nas mãos e, na careca, misturava-se o travo arroxeado e doce com o perfume forte de cravo.
A velha amoreira permanece, esquecida, em elevação coberta de relva, deserdada de memórias para quem a deixa ainda recolher as estações e espreguiçar os ramos tocando os sonhos de outrora, esses, pertença de momentos impossíveis no presente. Mas, quando lhe passo perto, soltam-se os sons dos nossos risos de criança e a voz do avô na lenga-lenga encantada da infância.

9.8.04

Hoje


[Picasso, Le Repos ]

Diria que a desilusão da chuva não trouxe a desolação de uma manhã ausente de sol. Talvez ainda venha a surgir, como aconteceu ontem. Se isso não acontecer será uma pausa, molhada mas relaxante a dias de permanência à beira mar na confusão de vozes, bolas atiradas a quem está, como eu, tentando cavar piscinas e construir muralhas fazendo, uma outra pausa, na leitura. A abstração total ao barulho em volta não se concretiza na totalidade, não é que não apreceie a companhia dos outros mas estes "outros" não me dizem nada, fazem-me uma espécie de urticária (deve ser por isso que a minha pele arde e não pela exposição descuidada de umas horas seguidas ao sol...).
Um dos grandes prazeres da praia é poder ouvir o mar. Olhá-lo, naquele espanto sempre novo de quem descobre infinitas colorações e movimentos, por isso nunca sacia. É como um amante que se vai descobrindo e nunca cansa pela certeza do gesto ou pelo eco do som cantado e repetido ao infinito. Esse diálogo usufruído no despontar do dia em que tudo paira sem pesar, à nossa volta, em que é possível sentir a quietude da natureza, ela própria desperta apenas no recolhimento da madrugada, é o momento único de comunhão, de pertença e de entrega total. E então, a paz envolve-nos, abraça-nos e mais nada é possível senão ceder-lhe.
Passado e presente entrecuzam-se como imagens sobrepostas que desdobro perante o olhar e a memória. Largos areais, recantos divididos pelas rochas, pequenos lagos onde os raios de sol penetram em reflexos de céu azul, abertos apenas aos nossos olhos inocentes e acolhendo, na areia intacta, o formato dos nossos passos hesitantes. A adolescência trouxe a descoberta de outros passos, a nossa curisosidade atenta, permitindo e partilhando outras presenças. Paraíso descoberto e, por isso, de regresso impossível ao estado original.
A passagem dos anos deve trazer-nos este desejo de recuperação, de silêncio necessário quando os nosso pensamentos se tornam inaudíveis.

7.8.04

O pátio dos limoeiros


[Haggenmacher, Limon ]

Não sei porque plantaram limoeiros. Talvez a intimidade dos pátios, agasalhados pelos muros das casas, lembrassem velhos jardins árabes de árvores odoríferas. É estranho olhar os espaços onde outrora o campo se cobria de figueiras, vinha e amendoeiras, rasgado nas suas entranhas para aí se implantar a "aldeia árabe" que hoje compõe o aldeamento. Liderada pela velha casa de alpendre, sobre a baía, os campos enfeitavam-se apenas de ervas rasteiras, umas aromáticas, como o funcho e o poejo ou, as floridas, de amarelo e branco, balançando as cores entre extensões de erva azedinha as campânulas esmorecendo em seiva agridoce que sugávamos com agrado.
Mas então, os caminhos eram outros e a distância não se percorria facilmente, percorria-se com o gosto de chegarmos a um paraíso perdido. O carro chegava apenas aos Arcos e aí permanecia até ao final das férias. A partir desse momento todo o percurso era uma aventura. A terra arenosa enchia o carreiro estreito, rasgado fundo no campo como se o mar tentasse penetrar a terra e espreitar quem chegava. A distância era longa e o burro, veículo único no caminho magro entre estrada e praia e tão habituado a carregos, levava as malas. Nas hortas que bordejavam para lá das sebes, soava a cadência fresca dos alcatruzes das noras, transportando no ar a dança que a água produzia. Algumas velhas casas ainda permanecem como testemunhos. Cortávamos o campo em filia indiana com incitamentos cantados alegremente, sobretudo quando passávamos a Alcaria, tão próxima já da praia, e o percurso completava-se ao ritmo dolente do burrico.
O pátio arranjado a um canto junto ao muro das casas onde o marmeleiro e a romanzeira debruçam os ramos sobre o longo banco de alvenaria enquadra o caminho breve para o pátio superior. Acompanhando a elevação do terreno, dois grandes limoeiros espreitam do alto dos degraus, acolhendo-me com a sua sombra e o seu perfume. Ao caminhar, os pés tropeçam nos frutos caídos, o odor forte enche-me as mãos e envolve a manhã clara.

5.8.04

A Barca


São as delícias de quem por aqui passa. Os bolos de amêndoa, o "doce fino" como lhe chamam, e os dom rodrigo. Tentação que salta aos olhos e se desfaz, lentamente, no sabor macio do travo da amêndoa. Elaborados em formas delicadas, a escolha é difícil, os cestos de flores e de frutos, os rosados porquinhos, os coelhos branquinhos comendo a cenoura ou a galinha cuidando da sua ninhada de ovos redondos aconchegados na palha do cesto. E volteiam nas nossas mãos, hesitantes em estragar a arte de quem os talhou mas, a água cresce na boca e não há razão, por mais bela que seja a forma delineada, que ganhe o prazer de sentir o seu gosto! É o pecado da gula? Doce pecado, que venha, será sempre bem recebido!
É o colorido brilhante das pratas que os envolve e esconde. Os dom rodrigo. Fios de ovos misturados com pequenissimas partículas de amêndoa, regadas com a calda dourada escurecida pelo tom vivo da canela. Esses, até a prata, por vezes, se mistura à ânsia de os sentir deslizar na boca, fios de doçura a escorrer pelos dedos que se lambuzam, de olhos semicerrados, não vá perder-se uma gotinha!
Ontem à noite, após o jantar, rumámos à povoação de Alvor para um breve passeio nocturno com paragem obrigatória na Barca, onde existe a melhor doçaria algarvia. O café acompanhou as delícias saboreadas em êxtase, deixando para trás preocupações de elegância e priveligiando os sabores tão fortes, desta terra de gente moura.

4.8.04


Veredas antigas que conduziam ao mar. Entre as dunas da infância...

Quando a praia se transforma em mercado oriental

Ontem, Sol(eiman) reapareceu. A praia transformou-se num verdadeiro mercado oriental! Com o seu andar dengoso, o sorriso espelhando bonomia no rosto redondo de lua adormecida pela sombra, apareceu, contornando os rochedos que enquadram a reduzida extensão dos chapéus de sol. Ao ombro, transporta o saco saltitante de cores ansiosas e brilhantes que espalha à beira mar com displicente cuidado. E a praia transforma-se num verdadeiro mercado oriental, em que não falta sequer o odor das especiarias nos tons vivos dos panos. O açafrão namora os rosas e os lilases, o verde jade casa-se em perfeição aos turquesas, os amarelos debruçam-se na curva dos cinzas e dos azuis enquanto os tons de fogo lançam labaredas aos pretos e brancos. E, por todo o lado, cruzam-se os fios de seda com o cintilar das pedrarias, os vidrilhos alongados e as estrelas feitas de lantejoulas em bordados das mil e uma noites.
E então, o ritmo estival perde o rame-rame ausente de grandes emoções e ganha uma vivacidade colorida recortada em fundo de quebra mar. Neste momento esquecem-se as pretensões do "sangue" e da "hierarquia social", e é ver marquesas, "tias" e simples veraneantes, em corrida ansiosa tentando agarrar túnicas, panos, colares e múltiplos adereços, mãos repletas de oportunidades que se distanciam dos Versage, Yves Saint Laurent e afins. Agora, a ânsia de exotismo quebra a estudada "compostura" e regateiam os preços na tentativa de esvaziar o peso dos artigos que lhes enchem os braços. E Sol, a cabeça em rodopio, sorri, ensina a colocar os belos panos demorando a mão nos ombros nus, em afago disfarçado, os olhos derramando sensualidade nos corpos bronzeados com sabor de maresia.
Confesso, não resistimos. Comprámos uma túnica e um pareo.

2.8.04

Solidão de azul


[ Le Café Crec, Blovin]

Domingo. O dia mais detestável na praia. Egoísta? Fruto de ter crescido nesta imensa extensão de areia, onde os sonhos tomavam forma em construções desmoronadas pelas ondas em tempestades de espuma. Ficava este som de maresia salpicado de sal que o búzio nos devolvia, em carícias sussurradas ao ouvido. Música calmante que o tumulto de vozes e correrias pela praia, impede a percepção. As águas não são apenas cortadas pela passagem esporádica de "traineiras" e "gasolinas" dos velhos pescadores, ou de pequenos botes, de pesca artesanal. Agora, para meu desgosto, nesta pequena baía e em recantos outrora tão límpidos, amontoam-se os iates de gente que "chegou, viu e venceu". Como eu prefiro os gregos!
A praia está mais larga. O Inverno trouxe muita areia e tapou quase todas as pequenas rochas, como pequenas ilhas abrigando colónias de camarões, anémonas e alguns polvos. Era preciso pisar com cuidado o tapete macio e escorregadio de um verde vivo alternado de tons rosa e verde garrafa das algas. Este ano a areia cobriu tudo, apenas as rochas grandes permanecem de vigia.
Uma multitude de chapéus de sol preenche o espaço aberto, deixando pequenas frestas por onde, a medo, se entrevê o movimento azul do mar. Quase custa respirar. Não se deu ainda o reencontro habitual em que essa solidão imensa inunda a alma de paz.

Se...

É uma palavra corrosiva. Pressupõe possibilidades. Torna o inevitável aparentemente revogável. Acalma a consciência. Passa a acção para o campo do sonho. Inibe a própria acção. Torna o presente em futuro permanente. Transporta o presente comodamente para o passado. Mistifica a realidade.