29.6.07

a carta


(...)
Há janelas sem conta nestas casas cheias de frontões, de varandas e colunatas, de toda a espécie de ornatos barrocos. Janelas cheias de olhos. ...Há também sombras mascaradas de alegria na esquina dos edifícios com grandes flores de pedra.
Nunca amei tanto a luz como nos dias em que vinhas estar comigo; todas as coisas tinham mais realidade do que aquela que o nome lhes confere.
...Senti-me pela primeira vez eu e não uma coisa para aqui. Com um infinito pudor de te dizer esse milagre, que nem para mim ousava definir.
Tardes em que mordi a vida como quem morde um fruto agridoce e precário, com o sabor universal de que eu estava excluído.


Urbano Tavares Rodrigues, Ao Contrário das Ondas

foto de katia chausheva