puzle_of_love

Olhos cinza, a cor que o mar toma quando sopra nortada, timidez sobrando-lhe na voz, o Nuno. Perdido em imaginações, naquele silêncio onde despertam todas as sombras. Chegava sempre a seguir ao almoço, não sei o que fazia às manhãs. Sorvia o café a ferver, o frio a forçar o gorro de lã, os cabelos louros em rebeldia caindo-lhe sobre a cara. Chamava-lhe ‘boneco de neve’, os olhos riam em silêncio, adivinhava-lhe as palavras mais do que ouvia o seu som. Por vezes encontrava-o junto à ria, num grupo de amigos, com ar de quem se desempregara da vida, num mundo fechado, apenas seu.
Só o trigana lhe dava algum trabalho, no verão. Partia barra fora, conduzindo os turistas, beira-mar, caminhos secretos que as rochas desenhavam e o barco, cortando ondas em espigas maduras. Como no livro de Dylan Thomas, quem sabe perseguia a rapariga que se transformara em sininho vermelho quando mergulhara no mar. Volta amor, volta, dizia-lhe o Nuno ou era Dylan Thomas, já não sei.

Olhos cinza, a cor que o mar toma quando sopra nortada, timidez sobrando-lhe na voz, o Nuno. Perdido em imaginações, naquele silêncio onde despertam todas as sombras. Chegava sempre a seguir ao almoço, não sei o que fazia às manhãs. Sorvia o café a ferver, o frio a forçar o gorro de lã, os cabelos louros em rebeldia caindo-lhe sobre a cara. Chamava-lhe ‘boneco de neve’, os olhos riam em silêncio, adivinhava-lhe as palavras mais do que ouvia o seu som. Por vezes encontrava-o junto à ria, num grupo de amigos, com ar de quem se desempregara da vida, num mundo fechado, apenas seu.
Só o trigana lhe dava algum trabalho, no verão. Partia barra fora, conduzindo os turistas, beira-mar, caminhos secretos que as rochas desenhavam e o barco, cortando ondas em espigas maduras. Como no livro de Dylan Thomas, quem sabe perseguia a rapariga que se transformara em sininho vermelho quando mergulhara no mar. Volta amor, volta, dizia-lhe o Nuno ou era Dylan Thomas, já não sei.
desenho de João Lemos

