12.4.05

starting over

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O restolhar dos gatos despertara-a, acolhiam-se na varanda enroscados ao calor das cadeiras. Levantou-se, abriu as portadas respirando a manhã ainda tão serena, sem aragem. Essa, viria sentar-se mais tarde.
Chegara na véspera, já a noite crescia na frescura dos laranjais, projectando sombras nos muros do castelo. Era a passagem mágica no caminho para a praia, a sua prainha. E o sorriso encheu-se dessa serenidade que só recuperava nas origens.
Vestiu-se rápida, não queria perder o primeiro encontro com o mar, sem outras presenças, naqueles diálogos enrolados em espuma a que se habituara desde criança. Calcava o areal serpenteando entre cada investida das ondas, brincando de toca-e-foge, deixando o sol tomar-lhe o corpo, insistente, ansioso de carícias.
Agora tudo o mais lhe parecia distante. Apenas a harmonia desse quebrar ritmado da maré se fazia presente, em memórias isentas de outros afectos que não compreendessem o jogo infantil de recolher delicados búzios perdidos na maresia.
Os dias tinham passado, dispersos entre a praia e a casa, sem ânsia, nessa calma sem cuidados outros que os de mergulhar em solidão pacificadora. Sentara-se frente à lareira não conseguindo despregar os olhos das labaredas. Sempre a fascinara, o fogo. Uma quietude estranha libertava-se desse rumor crepitante, transmitindo-lhe segurança. Era a última noite, pensou, no dia seguinte iniciaria o regresso à cidade.
O comboio começara a mover-se atravessando a velha ponte sobre o Arade. Regressava.
Laura sentia o chão firme. Mas fora preciso rasgar o peito, esvaziá-lo de emoções, libertá-lo, desabitando-o. Só assim voltara a respirar, sem sobressaltos.

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