
Vettriano
Os velhos eléctricos.
Barulhentos, saltitantes, transbordando de gente, ajeitando a frescura a convite das janelas escancaradas.
Equilibro-me, sentindo o chão firme depois de um passo em falso. Brincamos, eu e o eléctrico, sempre assim foi. Desafiamo-nos, tentando enganar, eu os movimentos bruscos nos carris, ele rindo-se da minha posição instável no dobrar das curvas. Só a aragem nos acolhe, aos dois e nos vigia as brincadeiras. E é sempre à desfilada que corremos.
Pela antiga rua da Junqueira, miram-nos os edifícios, revestidos de azulejos polícromos com belos gradeamentos de ferro cingidos à largura dos vãos. Marcando posição, os palacetes dispõem-se em correnteza perfeita, lavrados por belas cantarias de pedra liós, encimados, alguns, por estatuária envergonhada.
Gosto de vê-los. Enumero-os quase de olhos fechados, tantas as vezes que marco encontro com as suas belas fachadas. E não lhes posso ser estranha, pelo cuidado escondido no olhar com que lhes faço namoro.
Noitinha era, hoje, quando percorri a distância, em viagem repetida tantos verões, entre o velho Picadeiro e as arcarias do Terreiro do Paço. O vento soprava leve nos cabelos.
Curiosamente, não recordo o percurso.


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