7.2.05

diálogos com Garrett

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Umberto Stefanelli

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.

Deslizamos nas águas deste rio. Suavemente porque doces são os pensamentos que me levam. Vejo-te através de um olhar perdido num momento outro, irrecuperável. Sorrio-te, ausente. Recosto-me no presente vazio de cores, sem sobressaltos.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.

Falas-me neste tempo em que não me reconheço, estranha de mim. E evolo-me em movimentos que te excluem, apenas meus. Os sons chegam-me, rompem a névoa sobre a cidade. Não esta que percorremos, a outra onde me situo.

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero


Respondo-te, pairando nas pontes que não nos unem. E as palavras desenham o contorno de imagens desencontradas.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.

Amo a cidade, cintilante, absorvente de luz a que a porosidade dos edifícios transmite tonalidades etéreas. Bebo-lhe a beleza. Olho-te e não te vejo. Tu e a tua cidade.

E quero-te, e não te amo, que é forçado,

Suavemente deslizamos, empurrando pensamentos. Colocando laços, desfazendo outros. Sem nos importunarmos.

Mas oh! não te amo, não.

Refugio-me nos sons. Não nos teus, esses não os oiço. Naqueles que escolho como meus.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto
,

Estendes-me a mão, puxas-me a ti. Deixo-me envolver nesse amplexo. Fecho os olhos.

Mas amar!... não te amo, não

E sonho um rio em sombras de ouro na manhã fria.


Diálogos com Garrett, ao som de Mozart.


Almeida Garrett, Não te Amo (excertos do poema)
Concerto para violino No.3 in G.K.216, Yehudi Menuhin, violino, Bath Festival Orchestra .

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