5.4.05

vazio


Entreabriu os olhos no momento em que o comboio se imobilizou. Arrastou-se estação fora, passo inseguro, passando cada rosto sem olhar. Junto aos degraus o coração pulou forte, talvez aquele vulto...Como era possível sair do sonho e recuperá-lo, os sonhos perdem-se e não queria sonhar. Era este vácuo entre a posse e a perda que a fazia vacilar, a angustiava.
Fechou a porta, encostou-se-lhe pensando na precária segurança que esse espaço lhe transmitia. Queria que o tempo passasse, rápido, fluido e a memória se tornasse branca, sem mancha alguma de lembranças. E dormir, precisava dormir.
Lentamente, o silêncio instalara-se dentro e fora de si. O torpor do sono assomava, sentia o corpo quebrar-se na vontade.
O toque do telefone fê-la sobressaltar. Repetia-se, insistente. Segurando no peito os batimentos desordenados, precipitou-se para o fio, soltando-o da tomada. Mas foi como se o toque lhe restituísse a sua voz e a sua presença.
Rolou na cama, perdendo-se no vazio que o outro corpo não preencheria. A pele queimava na certeza de um sono não partilhado, trazendo na ponta dos dedos o sabor amargo da ausência dos gestos. E na boca, sofria a distância de carícias que a outra boca não desfolharia.
Laura percebeu que ao recusar o afecto, na recusa, amputara o seu próprio corpo.

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