23.5.05

brilhos




Espreitávamos e as imagens saiam distorcidas. Mas o mais divertido eram as cores, as bolas rolando, mostrando riscas e tons irisados, brilhantes.
Tinham vindo da América. Alguém as trouxera. Vinha de lá tanta coisa, dentro de enormes malões, fortes, com fechaduras chapeadas. Ainda existe um lá por casa cuidadosamente colocado em cima de suportes em madeira. Um dia a mãe resolveu dar-lhe vida, pintou-o de verde escuro e forrou-o de tecido. O malão rebrilhava vaidoso, encostado à parede, metendo-se com quem passava. Guardou fofas mantas de lã, as que vieram das ilhas e as outras, da breve passagem pelo Alentejo. Da longínqua América arrecadou os berlindes, acomodados no saquinho de tecido riscado, atado por um atilho de algodão.
Depois da ausência da mãe, esquecemo-nos dele.
Porém, quando se abre a tampa abaulada, de tinta agora esmaecida, é a magia que salta, a da infância. As mantas foram substituídas mas os sonhos da meninice permanecem fechados, guardados no coração do velho baú. Em riscadinho de cores, protegendo os berlindes de vidro colorido que os nossos dedos já não fazem rolar.
Tinham vindo da América. Alguém os trouxera. Vinha de lá tanta coisa...


Sem comentários: