8.5.05

literary chain






G. Courbet


a mão abriu a porta e a luz entrou livremente. Ítaca, ilha mítica de Ulisses (1) aparece-me, nítida. oiço os olhos de Penélope, escrevendo lamentos na longa tapeçaria: O que dói /É não poder apagar a tua ausência /E repetir dia após dia os mesmos gestos /O que dói é o teu nome que ficou como mendigo /descoberto em cada esquina dos seus versos//o que dói /É tudo e mais aquilo que desteço /Ao tecer para ti novos regressos (2)
oiço um leve sopro marítimo respondendo e afagando (...) os cabelos soltos pelo vento da eternidade. O meu destino é essa mulher que não cedeu à dor da partida, e tece com a mão do amor os instantes que nos reúnem. Essa, com quem partilho o vinho da saudade, dá-me com o seu corpo a única viagem que nunca termina, porque sempre o seu fim é o seu começo, no abraço que nos reflecte no espelho da vertigem e nos devolve depois a quem somos, aumentados do que, um e outro fomos.(3)



Fragonnard


continuo a viagem no tempo, sentindo-me como o viajante que (...) Chegando a qualquer nova cidade (...) reencontra o seu passado que já não sabia que tinha: a estranheza do que já não somos ou já não possuímos espera-nos ao caminho nos lugares mais estranhos e não possuídos reconhecendo que o algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá (4)
volto ao meu tempo, retenho vozes que se cruzam: mas tu não, tu nunca choraste /por amores que se perdem / os naufrágios são belos / sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas? / e temos saudades desse mar / que derruba primeiro no nosso corpo / tudo o que seremos depois / "Pago-te um café se me contares / o teu amor"(5)



Monet


avanço no meu percurso, reflicto: Poderá ter a arte missão mais alta na vida que a de nos permitir uma evasão visual do quotidiano, do que já somos e do que já sabemos? Talvez seja o instinto de exploração o que vale acima de tudo no homem: essa persistência na fuga que o leva a escapar-se de si próprio, essa inquietação obscura que o acomete, de ave de arribação atraída pela vibração de todos os horizontes. Alguém disse que viver é querer viver mais, apetite de engrandecimento, descontentamento difuso e sem tristeza(...)(6) como que a evocar-te: Viesses tu beleza antiga e sempre nova / encher aquela mão que abre/ dentro de mim a inquietação / e a minha humilde prece tomaria a forma /do mais agudo ângulo das tuas duas mãos /onde toda a paisagem triangular termina / O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície /tão pouco ambíguo como não sei que nuvem /Colhesses um por um os meus passos dispersos /achasses-me nos meus perdidos versos /e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas /nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar /O teu lugar /seria sempre no côncavo do sonho /e eu não me esqueceria /de agora ou logo ir-te lá buscar /E nestas tardes que sobre nós desdobras /passariam as dobras dos cuidados /Em nós quaisquer outonos morreriam (7)





Picasso


lembrando-me que disseras Talvez pudesse ouvir passos à porta do quarto, passos leves que estacariam enquanto a minha vida, toda a vida, ficaria suspensa. Eu existiria então vagamente, alimentado pela violência de uma esperança, preso à obscura respiração dessa pessoa parada. Os comboios passariam sempre. E eu estaria a pensar nas palavras do amor, naquilo que se pode dizer quando a extrema solidão nos dá um talento inconcebível. (8)
sigo viagem observando-te . Entregue completamente aos devaneios da sua imaginação nebulosa, Shimamura via-se a viajar no irreal, levado pelo grande Vazio eterno, fora do tempo e do espaço, por algum veículo sobrenatural. Por cima do ritmo monotonamente batido pelo ruído das rodas, pouco a pouco começou a ouvir a voz daquela que acabara de deixar. Soltas e bruscas, as suas palavras significavam pelo menos que ela estava bem viva, intensa e real na sua deslumbrante vitalidade: e, porque sofria ao ouvi-la, Shimamura soube que a não tinha esquecido.(9) finalmente, cerro a porta e adormeço.

Tentei diversificar a forma de respostas a esta literary chain, a segunda e última a que acedi não quebrar. Nem poderia fazê-lo pela consideração que MJMatos me merece.
Transmito-a ao Zero, porque admiro a sua versatilidade temática e pela amistosa cumplicidade que nos une nos comentários; à Sara, porque ama a literatura tanto quanto eu; à Pandora, pela beleza lírica de alguns textos que nos revela, de vez em quando.

(1)Homero, Odisseia
(2)Daniel Faria, "Ítaca" in Oxálida
(3)Nuno Júdice, "Canto Marítimo" in Geometria Variável
(4) Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
(5) José Tolentino Mendonça, "Murmúrios do Mar" in Baldios
(6) José Ortega y Gasset, A Desumanização da Arte e outros Ensaios de Estética
(7) Ruy Belo, "Homeoptoto" in Cidadão de longe e de ninguém
(8) Herberto Helder, Os Passos em Volta
(9) Yasunari Kawabata, Terra de Neve
e...muitas mais seriam as obras e os autores...

ah!, são estas as perguntas:



Literary chain questions






Não podendo sair do Fahrenheit 451,
que livro quererias ser?
Já alguma vez ficaste apanhadinha(o)
por uma personagem de ficção?
Qual foi o último livro que compraste?
Qual o último livro que leste?
Que livros estás a ler?
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
A quem vais passar este testemunho (3pessoas)
e porquê?

Sem comentários: