17.5.07

apatia...

foto de xxANGeLiCFRuiTCaKExx


perdão é esse peso que o coração transporta: tecido, artérias, sangue. perdão é viagem entre duas margens, diária, maquinal, previsível. perdão é dar sentido aos dias quando (já) nada há a perdoar. tão naturalmente perdoamos…

22 comentários:

Mateso disse...

Perdão ... a catarse do orgulho, da dor e do ínfimo.
Como sempre denso e belo.

Mateso disse...

Perdão ... a catarse do orgulho, da dor e do ínfimo.
Como sempre denso e belo.

Cristina Nobre Soares disse...

Perdão é perder a esperança que o passado tivesse sido diferente...
Lindo...muito...

nameless as a desire disse...

Perdoamos, mas nunca esquecemos.

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

perdão é coração grande que nem sabe que perdoa. tudo perdoado está...*

Fuser disse...

Moriana

Venha ouvir o Encontro da Terra Brasilis.

beijos

fuser

Cometa 2000 disse...

perdão. uma ponte que liberta.

repor o dom.

restabelecer a relação (comigo ou com os outros) e avançar de novo sem defesas. ainda que sem esquecimento. esse... talvez depois venha como consequência.

deixar de ressentir, de sentir e sentir e sentir e não sair disso cá dentro.

"tão naturalmente perdoamos...", pois... mais difícil é sentirmo-nos perdoados. por nós próprios também.

dar sentido, sim. mais que tudo. quando o tempo e a vontade acaba por lavar o coração e permitir a renovação.

helena disse...

Querida moriana.
emociona-me sempre a tua escrita. mas hoje, mais do que nunca. Deves imaginar como fiquei ao ler esta frase "perdão é dar sentido aos dias quando [já]nada há a perdoar".
Beijinho

Afonso disse...

Perdão . . . . o ponto máximo da humildade.

Até breve . . .

laerce disse...

Um peso, uma viagem e um sentido para o perdão. Tens razão.

Uma viagem difícil de fazer,às vezes, porque é pesada de mais, ou porque deixou de ter sentido.

Um beijinho

musalia disse...

mateso, tudo isso e muito mais.
:)

musalia disse...

cristina, há que aceitar o presente. e sempre temos a a arte...

musalia disse...

nameless as a desire

não esquecemos, nunca.
ou existirá esquecimento por não existir razão para perdoar..

musalia disse...

inês leal, curiosa a palavra 'perdão', interessante dissecá-la
:)

musalia disse...

fuser, irei, fui. no teu espaço, claro :)

musalia disse...

cometa 200

curiosa essa definição: repor o dom...
reflicto: e se 'repor' fosse assim quase uma atitude de desespero? quero dizer, para encontrar um sentido.

musalia disse...

helena

posso imaginar, sim.
sabes que a minha escrita é melancólica. nada a fazer
:)

beijinhos.

musalia disse...

afonso

definições tão diversas para 'perdão', em todos os comentários :)
riqueza, diria.

bem vindo, volta sempre.

musalia disse...

laerce

viajar numa estrada branca, diria.

beijinhos.

Nando disse...

Musalia,

Basta não esquecer o essencial. De outro modo a nossa vida seria uma tortura, sob a imanência loquaz da reminiscência. É certo que não recordar não é o mesmo que esquecer, pois a busca activa de recordações não esgota o papel da memória, que guarda, repousa, filtra, refaz e projecta. Memória não implica actividade constante, apenas "ginástica" regular. Mas o que lembramos não é exactamente o que não esquecemos nem exactamente o que julgamos revivescer: trata-se sempre de uma reelaboração, de uma interpretação, da inclusão em certo sentido de uma subjectivação. (basta cotejar as memórias de três ou quatro pessoas relativamente a um evento comum marcante – com “pathos” – testemunhado ou vivido por elas; conquanto resista um núcleo objectivado, consoante a intervenção e situação de cada um, surgem pequenas diversões, traduções divergentes; não se trata de um ponto de vista, pois do memo ponto exacto diferentes olhos vêem coisas distintas; trata-se de sensibilidades diversas, de histórias e construções e percursos que atestam uma reserva de personalidade ímpar, exclusiva) O perdão também se matricula e entalha na intriga afectiva da vida: não é apatia. Resulta de uma postura activa; de um acto de reforma. Se for indiferença, não é o perdão. Se for uma dádiva que se entrega, trata-se de uma concessão, o que implica que quem perdoa está num patamar distinto daquele a quem se perdoa, o que pode gerar uma secreta altanaria. Desesperança militante e desalento também não conseguem conformar-se com o perdão – este é, na substância, um acto de amor. Pode ser silencioso. Só o amor enche o coração: portanto, o perdão pesa, rubrica. Mas não deveria ser um resgate de uma perda nem uma vingança da vida. Perdão é uma excepção, não a naturalidade; pois por este modo desbarataria, arruinaria todo o sentido, enleado com a rotina. Não é uma missão, nem um acto de filantropia ou caridade para com o mundo, nem de benevolência para connosco próprios. Nem, no meu aviso, portanto, uma previsibilidade; senão torna-se uma maquinação, um calculismo, um abraço ao movimento redondo. Nem “perdão de nós próprios”, embuçando uma espécie de resignação envergonhada que se quer tansmudar em fundação de outra coisa. Porquanto não é uma terapia ou depuração de nós mesmos (embora também), já que, assim, poderia ser unicamente um acto de comprazimento “egocíclico”. O embuste de uma renúncia: uma punição.
Uma variação da implosão e da explosão, um canto estridor? Ou auto-comiseração? Perdoar supõe uma razão, um motivo, uma condição causuística, particular, geral?
Esta minha diatribe não retira a beleza sugestiva e melancólica das tuas palavras: há sempre, para os advertidos no ingresso da consternação, a insinuação de uma alegria que dali egressa, que se distancia da plangência e do queixume. Prazer e dor?
O mundo está prenhe de pecadores e prevaricadores do coração: perdão diário? Hermenêutica reconstrutiva?
É preferível ter raiva, ressentimento, ressaibo… Por vezes, perdoar admite uma pedagogia de castigo, como no-lo ofertam as parábolas dos Evangelhos. Mas quando nos constituímos amantes e amados, perdoar tem um sentido volúvel, flutuante; umas vezes áspero, outras, gracioso… É mais um trajecto, de sincronias e avaliações, de recuos e avanços, de asserção e claudicação na diacronia da existência.

musalia disse...

nando

desacordo em vários pontos.
'só o amor enche o coração'? então que dizer do ódio, da raiva? é mais duradoira, até...

'perdão' pode revestir formas diversas. pode até banalizar-se...

'perdão' pode ser outra coisa escondida nas palavras. depende do olhar...

Nando disse...

Aceito, claro, os desacordos.
“Perdão” pode ser outra coisa escondida nas palavras, com efeito.
A minha demanda não é sobre as palavras, mas sobre o que elas representam. A codificação que elas aportam não pode ser totalmente arbitrária.
Se perdão for um eufemismo para raiva, ressentimento ou ódio, que nos estorva a outras significações?
Amor e ódio não são substâncias, entidades ou coisas-em-si que sobrevivam para as manipularmos. São estados ou afectações próprias do humano. Ninguém nasce com “o ódio”; este está concatenado com o amor, dito assim superficialmente.
Em geral, suponho que o ódio vem depois do amor. E não pode perdurar e habitar o coração longamente, sob pena de fazer implodir alguma coisa.
O ódio e a raiva podem, de facto, mobilizar o coração, sob uma reiteração persistente. Mas parece-me que vêm enredados com outra coisa que orbita fora do coração.
E o perdão pode funcionar como fundamento que actualiza uma desculpa de si e do outro. Mas quem se desculpabiliza a si e aos outros demoradamente, sem criar uma abdicação?
Quando o perdão se banaliza, quanto a mim, já não é o perdão. Ninguém pode viver continuamente sob essa determinação e efeito: o sujeito precisa de afirmar-se e, para tanto, apresenta-se ao mundo como ser conflitual – consigo mesmo e com os outros. A conflitualidade é benéfica. Eliminá-la – sob a égide do perdão - equivale a colocar o sujeito como um “indivíduo-fora-do-mundo”, como ser a-social. Alguns santos catalogados parecem ter levado o perdão até ao sacrifício da carne, até à continência de todo o contacto com essa marca. Claro que é possível amar o universo e o invisível sem aquele postulado, mas nessa altura estamos connosco sós, com a tal dependência intrínseca de um ser imerso na sua solidão. Ainda assim pode ser uma forma sublime de amor outro, conjugado com uma altiva caridade para com o mundo.
A alternância do “ódio”, em razão do dito, pode ser uma via pontual da existência, mas não deve tornar-se uma imanência que transfira para o amor uma transcendência.
Portanto, se, em parte, o “perdão” pode ser “outra coisa escondida nas palavras”, não depende só de uma consideração sob o olhar, uma vez que não queremos cegar, e essa outra coisa, às vezes, é um faca espetada directamente no âmago, na carnação do coração. Não é apenas um ponto de vista a avaliação das palavras, mas também “um ponto de sensação” consoante a zona do corpo e do espírito atingida, decorrendo a intensidade ou mitigação delas em função da ferida provocada.
Geralmente, o ódio e a raiva são mais estimulantes na óptica da criação artística. Isso não requerer uma essencialidade desses motes.