20.5.07

He's got you and he's got me in His hands


He's got everybody here in His hands,
He's got everybody there in His hands,
He's got everybody everywhere in His hands,
He's got the whole world in His hands.










he's got you and he's got everybody in his hands...

10 comentários:

inês leal, 31 anos à volta do sol disse...

humm... :)
tão doce esta canção...*

Nando disse...

HUMANO: AS CHAGAS DO CIGARRO

As mãos: o liame da transcendência, o amplexo dos mundos diáfano e opaco. Conectam. O lastro de todos os “corpos” num círculo sustido entre o indício de um tentáculo e a evocação de um esquisso comprimido de um esquadro e de uma prece. Humano. No torvelinho da rotação, uma criança vencerá, e reganhará a confiança nas mãos reparadoras que caucionam o orbe, ou amaldiçoá-las-á, porque irrequietas e vingativas? Castigo ou perdão? Será urgente a morte, um renascimento? Humano: a cinza da queima do purgatório. O inferno da desesperança do queimor dos corpos. As fístulas enxugadas. Humano: a liberdade do homem se elevar do seu eu natural, fazendo para si um outro, o do homicida e do suicida. Enquanto defuma réstias de um incenso torpe.
Mas as mãos invisíveis são como as mãos desertas: deixam escapar o essencial, quando adestram sorver a vida. Por vezes, só resta o inodor do mercúrio decaído dos astros distantes, a exalação de serem gémeas. Inabitadas, de um flanco, vacilantes, de outro.
Não, já não estamos nas Suas mãos etéreas. Há muito que estamos sós, abandonados à nossa ventura ou fado. Desinteressou-se. Talvez Se devote da criança, ainda assim, humana… semelhante.

musalia disse...

canção infantil :)

musalia disse...

nando, estamos sós desde que nascemos. nós é que pensamos o contrário...

Nando disse...

CANÇÃO INFANTIL

Uma canção infantil tradicional – cristã -, escrita, provavelmente, por adultos. Como praticamente todas. A tradição tem o condão de, ditosa, ou funestamente, infantilizar tudo. E, se esta simplificação é, nalguns casos, profícua, para que a vida ganhe espontaneidade, fluência, noutros, porém, leva-a até ao cultual atavismo – retrocedência que impede reactualizações como rito – e dormência acrómica, embriagando-nos numa quase sem-memória, feita de refrões. Uma vez que as crianças não podem forjar a sua identidade numa exclusiva autarcia do eu, senão numa dádiva e entrega de comunhão e inter-trocas securitárias, as canções exprimem a felicidade elementar do mundo, para que não se sintam sós e possam iterar alguma coisa que adquira firmidão, pelo represamento.
Todas as canções são infantis. Ou são binários ritmados num fôlego de ilustrações e ademanes, ou, então, jogos matemáticos, pautados por harmonias que dançam com um passo de geometria ciciado. Ludo e puerilia.
Claro que não se passa nada disto! Mas digo-o com um secreto prazer nostálgico, porque me arrependo, diariamente, de ter deixado de ser criança. E este arrependimento compulsivo concede-me que reforme o passado, sem o fantasiar excessivamente, sob castigo de o desobjectivar. Permite-me que o reveja de vários pontos, colocações e panoramas, que o contorne, ocasionalmente como um carrossel que se pavoneia relativamente ao seu eixo vertical como achando ali, acaso, não uma razão mecânica – de sustentáculo do movimento – mas um umbigo. Não, não se trata de uma experiência narcísica, de uma visitação que tem em vista ampliar um eu desestimado. Trata-se, antes, de realçar ou atenuar momentos vitais – de dolência ou de alegria -, para retomar o futuro, para lhe conferir nexo e direcção, vivido. Faço-o de acordo com as perspectivas dinâmicas presentes Quando regresso, é já futuro: triste, parado, turbado, risonho, voluntarioso, venturoso. Ou, declaradamente,… infantil.
É por isso que os meus irmãos e irmãs estão numas mãos cansadas, irresolutas, que, embora suportem o peso do mundo inteiro – o sol, as estrelas, os rios, os oceanos, as nuvens e o vento – não encontram um corpo que as detenha. Sim, não imaginamos mãos metafísicas nem motor que não careça que se lhes induza sangue, adustível substrato que evite que se proste. Vitoriosamente, as crianças percebem rapidamente que quem segura o mundo é um pai muito grande, gigante, um humano extraordinário. Trata-se de um Golias: um concreto entre o pai e o imaginário de uma estória. Não, não imaginam uma utopia. Uma concepção qualificada entre o infinitamente poderoso e a inexorável fragilidade de um ser – um átomo – solto no universo. Isso é coisa, maquinação de adultos.
Quando miramos a esfera (não azulínea) tomada em parte pelo cinzento e pela turbulência, também poderíamos declarar que o Diabo vem tomando tudo: já só falta o fresco clorofílico e a criança. Estaríamos “nas suas mãos”, gadanhas. Mas não, de todo! O Diabo é um ser de razão, um contrabalanço, um equilíbrio. Ao contrário de Deus, não pode arrebanhar tudo, porque precisa de corpos; logo, de pessoas. Não se interessa deveras pelos espíritos, a não ser para cativarem e deslumbrarem com a carne.
As “Suas mãos” não podem, por isso, ter um sentido unívoco. Não estarmos nas suas mãos etéreas não é o mesmo que não estarmos nas Suas mãos carnudas. Já abandonámos o espírito, vendemos a alma: por isso, não estamos naquelas mãos omniscientes e determinadas. E, quando julgamos espiritualizar e santificiar a vida – por pequenos vestígios, indícios – e recuperar a alma, isso é somente uma tentação do demónio, que nos seduziu. Por que não infantilizar também esta dialética? Que nos impede?
As crianças carecem de miméticas exemplares, porventura. De aprendizagem, de estruturação segundo um quadro axiológico. De fins e valores universais As canções são úteis. Mas esta é infantil – não inocente - segundo um padrão específico antropomórfico. E ainda falta escutá-la, porque retalhar palavras não é o mesmo que ouvi-la, enviarmo-nos ao sabor enérgico, ou lânguido, de uma cadência.
Porque ainda titubeamos dentro do tufo verde e da fábrica, não estamos sós.

Nando disse...

2. PÓS-EGOISMO (não estamos sós)

Nunca estamos radicalmente sós. Usamos dizer sozinho, solitário como visos de solidão e abandono. Noutros declives enfáticos, como sintomas de despeito, da decepção ou desencantamento do mundo que obstinadamente existe diante de nós. Mas a solidão não pode ser uma abstracção, um conceito, uma representação universal inteligível, captável de um exercício teorético ou simplesmente artístico. Não, a solidão é um sentimento pessoal, que só pode ser interiorizado a partir de alguma experiência crucial: não consente uma analogia pura, uma deslocação ou transferência ou transformismo criativo. Excepto, talvez, quando um núcleo significativo de experiências aparece já estruturado como teia guiadora da existência. Mas experiência não é simplesmente teste – é a abertura ao exterior que supera a expectativa, que nos surpreende ou atraiçoa, que vem para nós como inovação. Nesta acepção, pode ser dolorosa.
A primeira crueldade para o bebé deverá ter sido perceber, um dia, que o seu corpo era distinto do da mãe, não já uno com ela – um só. Vê-la como espelho de si, mas agora separada, objectivamente fora, talvez lhe tenha engendrado o medo de, largado no mundo, não ser amado nem compreendido. Do primeiro amor e posse, pressente a angústia do desamor.
Entenderia, mais tarde (como personalidade), que o amor se torna uma rijeza processual, friccional, de que só as primícias – a paixão, quiçá – têm conteúdo com promessa edílica. Tudo o resto é um transe experiencial; logo, com mágoa. O bebé haveria, pois, de passar de um corpo – primeiro objecto cultural – a um sujeito “histórico”, anamnésico. Sem memória não é possível conhecer, conservar e dilatar conhecimento; igualmente, o amor, pois este é mediato, temporal, um processo duro entrecortado por espasmos de gáudio: o seu fim, a felicidade, no futuro. Mas quando chegado aos futuros que se vão antepondo, pode desiludir-se ou entrar a descobrir que a felicidade está no passado, só que não o tinha compreendido. Já tinha desvelado para si que o amor é uma luta, a disputa do seio e o combate do choro (é por isso que em toda a parte chove. Como dizia Tim Buckley, “Everywhere there’s rain, my love, everywhere there’s fear”.) Só principiamos no amor – porque o primeiro momento gratuito de recebimento já o fora dentro do ventre – com o indefinido suor da lágrima e do orgasmo. Mas não se pode detê-lo: doravante não está em lugar nenhum; nem nas mãos, nem nos olhos, nem nos ouvidos. Está no mundo, gratuito, clamando por nós, insensibilizados, que tenteamos desesperando dele. Fica sempre essa ânsia de restar na alma – qual retenção, lembrança, modelagem – como ideia, um desígnio a recuperar e a prosseguir, um paradigma e uma modalidade de. Não estamos sós quando nos movemos em cumprimento desse desiderato.
Já sem memória, deixámos de poder amar.
O júbilo de um momento primordial esfumou-se. Há que reconstruí-lo. Como? - Com ficção.
A realidade tem menos drama do que a ficção: esta intercepta, colhe, confisca, agarra o essencial dos tramas da existência. Afeiçoamo-nos, por isso, às imagens artísticas de um conto, para reproduzi-lo em vida, como querendo realizar um filme, um sonho. Havemos de ser tragados por ele, ou traídos…
A subsistência “normal” é a compulsão para a reprodução da ficção, porque esta tem um sentido, um desfecho. O ser normal é um ser ficcional. Quanto mais ficcional, mais extraordinário.
As crianças são a primeira instância ficcional por excelência. Por essa consideração, quereremos, um dia, tornarmo-nos crianças.
Um amor ficcional, a partir de um arquétipo que tenha remanescido da experiência tensional da separação e religação, pode dar um grande amor. Quem – quando - ama e é amado não está só. E quem não está situacionalmente em posição de proximidade concreta, deve perseguir o amor – que é também provação. Uma espera, ocasionalmente. Mas este seguro e protecção de não estarmos essencialmente sós - e mesmo “post mortem” -, não pode desdobrar-se de uma totalização e propensão do individualismo – e da sua apologia -, por um lado, e de uma reclamação, por outro, de que não o queremos, afinal. (Podem conciliar-se, harmonizar-se, possivelmente, todavia)
Descobri agora um bom critério de decisão ética: o amor, formal e materialmente, como premissa e medida de escolha. É bem mais pulsional e difícil do que uma aferição racional. Mas é também uma maneira de não estarmos sós, retirando a extremada centralidade do eu que existe de costas viradas para o outro, pressentindo-lhe apenas o odor…

(Claro que isto é uma invenção – uma ficção: uma versão romântica, extravagante, poético-religiosa, feérica, talvez isso tudo. Pois quando sobrevém a doença, sentimos desengano ou somos apartados de um ente querido, sub-estimados, a nossa auto-imagem pode conduzir-nos a um isolamento – momentâneo que seja – produzindo uma representação consentânea com a adversidade de nos sentirmos sós)

musalia disse...

nando, sempre estivemos sós. não o sabíamos, vamos aprendendo.
:)

musalia disse...

a realidade, por ser tão dramática por tão crua, pode matar ('temos a arte para não morrermos de verdade'- já dizia o filósofo). por isso a ficção, neste caso o 'sonho', é benfazejo. e colocamos nele a dramaticidade que desejarmos. e pode-se refazer, modificar. a realidade é mais difícil.

afecto correspondido impede a solidão? não creio. há uma solidão inerente ao ser, impossível de partilhar, impossível de apagar. e nem sempre o afecto, mesmo correspondido, é viável. por múltiplas razões. pela sua complexidade...

Nando disse...

Julgo compreender o que dizes. Mas esse reduto, essa reserva íntima do ser – e a sua voz – é a condição humana natural, normal; é incontornável. Não é a perplexidade originada dessa atomização que é problemática, pois é também útil: é uma defesa que garante a integridade da esfera subjectiva também, qual impenetrabilidade. Todavia, defendo que este ermo da pessoa – a sua “impressão digital” - não é a solidão, pois está também suspenso de um investimento no mundo. Por isso, digo que não estamos radicalmente sós, visto que a sua subsistência e prevalência, não imediatamente partilhável, sendo a marca indelével do ser, o seu lastro, não encontra, porém, a sua razão e fim em si mesmo, nem é absolutamente estático, mas dinâmico, já que uma tendência de si é de exteriroização. E, basicamente, o amor correspondido (entendido como um processo mediato) atenua (“não impede”, propriamente, pois isso seria uma determinação e certeza indefensáveis até à exaustão) toda a solidão: a exterior e aquela interior ciclicamente recorrente. E falo de amor; não só de afectos em geral, porque aquele transcende-os e penetra aquele ser solitário de que falas, estabelecendo para ele uma coisa nova: dar. Mais do que partilhar e receber. Entendo, aliás, como Wilhelm Reich, que dar é o estado supremo que institui o equilíbrio da correspondência do dar e receber.
Averbo aqui esta nota não só para contradizer por contradizer, mas porque acredito nisto que digo. Embora concorde com a inerente “solidão” do ser de que falas – e a sinta, inelutavelmente, em muitas ocasiões -, eu chamo-lhe outro nome e confiro-lhe um sentido, um destino de entrega e difusão pelo mundo diferentes.

Imagine disse...

simplesmente .. lindo !