28.5.07

knock, knock on madness' door...



recolho-me a esta impossível forma de existir
para que a lucidez seja ténue transparência




trabalho sobre foto de katia chausheva

34 comentários:

Cristina Nobre Soares disse...

E do outro lado? Teremos a precepção translúcida daquilo a que chamam loucura?

bruno .b.c disse...

um abraço, musalia.
(sem mais, por excesso)

mitro disse...

Abriram-me a porta...

Sophia disse...

O pior é que às vezes parece não haver impossíveis...
A lucidez nem sempre é reconhecida como devia.

;) Baci

Bruna Pereira disse...

Deixa-me ficar contigo...

:)

nameless as a desire disse...

(...) "uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precisa."

A Lucidez Perigosa - Clarice Lispector

isabel disse...

...ou como diria o nosso Fernando Pessoa:
"Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?"

(in "A Mensagem")

um beijo*

[ é um prazer receber as tuas visitas e (re)visitar-te ]

Eliseu disse...

nock nock nock on heavens door :) ta lindo

Sanvean disse...

Como um fechar de olhos, porque estes desejam luz... :)

Pedro Branco disse...

Não me valem as palavras quando te sinto tanto! Valem-me as viagens para onde me transporto. Às vezes sozinho. Outras vezes com alguém. Valem-me as viagens que me trazem de novo aqui. Para que as palavras me bebam.

musalia disse...

cristina

interrogo-me se os loucos sentirão menos angústia. talvez...

musalia disse...

bruno .b.c

outro.
(à revelia da dormência)

musalia disse...

e tu entraste, mitro?

musalia disse...

sophia, talvez lucidez em demasia fira os olhos...

bjs.
:)

musalia disse...

bruna

deixo-te.
(também já te levei a passear, não foi?;)

musalia disse...

nameless as a desire

confesso a lacuna, pouco conheço de Clarice, apenas A Hora da Estrela. devo dizer, adorei a sua escrita, foi uma revelação.
recordo este excerto:
(...) Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

(curiosamente, Clarice morre no dia do meu aniversário...)

musalia disse...

isabel

é difícil imaginar Pessoa, somando números em filas certinhas, escrevendo tanto pensamento complexo...
sempre a arte como fuga ou salvação...

(é um prazer :)

musalia disse...

eliseu, quem franqueou as duas portas deve saber dizer da diferença...

musalia disse...

sanvean, a luz excessiva fere o olhar...

musalia disse...

pedro branco, são essas viajens que nos embalam os dias. ou, diria, nos salvam os dias (ou dos dias?)

Nando disse...

Madness. Um termo que não encontra correspondência directa em português, já que cobre um leque muito variado de acepções, formais e informais. Os portugueses também indeferem os termos demência, insanidade, preferindo o polissémico “loucura”, que serve muitas significações, desde abrandamento ou perda das faculdades mentais até à alienação, ao apaixonamento, arrebatamento, desvario ou somente extravagância. Eu prefiro a eloquência, expressividade que pode denunciar criação artística. Que lucidez aflora neste estado? Não sei.
Qualquer sagacidade, refulgência ou luzeiro será sempre transparência. Portanto, dizer “lucidez” é também dizer “transparência”. Remissão recíproca e redundância cíclica que não incomodam deveras, porém.
Mas bater à porta não é o mesmo que entrar, não o induz imediatamente. A não ser que a própria porta seja cristalina ou vaporosa: uma nuvem caprichosa que captura formas impossíveis, tão densas que simulam a opacidade de um madeiro, altura em que sobrevém a alucinação, que dota a pessoa de uma voz, de loquacidade. Por esta ilharga de ver, à porta não equivaleria o normal obstáculo de entrar e sair, mas uma linha delicada, frágil, subtil, donde estar fora é o mesmo que estar dentro, potenciando o olhar em desfavor do trajecto cruzado de uma fronteira. Ao tornar-se evidente o dentro, à sua apreensão adestrar-se-á o movimento do langor, não o movimento mesmo. E a esta percepção de um movimento da voz e do olhar cola-se a inércia e a dúvida e a incerteza de saber onde está a luz, se do lado de cá, se do lado de lá. Esta entrada ou transferência representada numa portada é a marcha da loucura, de formas ainda imperscrutáveis, já os sons se decifram.
A passagem por este portal, das trevas para a luz – ou vice-versa -, foi durante muito tempo assimilado a uma figura: Lúcifer. Dormir com o diabo veiculava a premência da palavra, numa baralhação descontrolada da volúpia exclusiva da carne com a da boca. Hoje, esse exemplo é já o desuso: transmudado em libertação e sofrimento interiores, em angústia e prazer, em assédio e agonia de um corpo retalhado sem imagem, sem retrato e reflexo, mergulhado na translucidez de uma lágrima. Uma transposição vulgarmente diagnosticada como madness.
Não, necessariamente, a perspecuidade da tua recolha existencial, mas também ou antes a desta máscara que aqui a exara como leitura e pretexto querendo anotar ali o que não pode estar, sob a chuva de um mar imenso.

musalia disse...

nando, a essas significações eu chamo polissemia.
lucidez não é sinónimo de transparência...e 'ténue transparência' transporta como que uma névoa, ou seja, aquele clarear em que as sombras não definem o que está para lá dessa transparência. adivinha-se uma forma sem a reconhecermos nítida.
podemos transpor a porta ou não, a decisão está em nós ou em circunstâncias que nos levam a. e a lucidez não advém dessa abertura (sobretudo se estamos contra a luz e o interior se divisa, apenas) e lá voltamos nós a essa lucidez-ténue transparência-névoa...
quanto a lucifer, encontrei-o amargamente arrependido da sua queda (era um anjo, como sabes) em 'Fausto' de C. Marlow...

laerce disse...

moriana,

recolho-me quer dizer abdico. Se for esse o caminho da revelação é um caminho doloroso.

Um beijinho

musalia disse...

laerce

doloroso ou defensivo...
mas um caminho, sem dúvida.

beijinho.

Nando disse...

Assinalo aqui essa subtil e transparente precisão quanto à transparência ténue. Mas, quando disse “dizer “lucidez” é também dizer «transparência»”, não se pode inferir que sejam sinónimos, tal como quando se proclama, por exemplo, "dizer 'tristeza' é também dizer 'mágoa'. Trata-se, neste caso, de uma implicação rebuscada, 'estilizada' do tipo "a tristeza implica a mágoa" (conquanto isso possa não ser verdadeiro). Do mesmo modo, quando afirmo "dizer homem é dizer mortal".
Quanto a conjecturar ou divisar mesmo formas para lá "dessa" transparência só pode tratar-se, portanto, de uma "loucura" formal. Desconfio um pouco da experienciação da loucura numa barreira estreita, delgada ou quase invisível - uma "porta", fronteira -, a não ser somente pelo contágio da eloquência. Mas também isto não é nem loucura nem contacto, mas uma invocação vaga, ou pelo menos imprecisa, uma recriação aparentemente reprodutiva ou representação. Não se é tocado "ao de leve" pela loucura. Esta é produtiva e galgante, não regressiva, em geral. Por isso, escolhi "madness". Logo, o critério da decisão deve ser relativizado fortemente, restringido. Em suma, não entendo uma afloração à “loucura” como se tratasse de um instantâneo captado por uma câmara fotográfica – uma fotografia, ou como um retrato artístico super-real. Isso beneficiaria sempre o olhar – e um olhar específico, com olhos, com vista. Ora (como te deixei noutro local, quando invoquei Homero – aquele que não vê a aparência, mas o invisível, o real), não é a visão declarada que pode dar conta sempre daquilo que é essencial. Há uma visão interior que escapa à perspectiva do espaço e de todo o local: esta é relativa à lucidez e à loucura. Mas nem a loucura é alguma vez lucidez nem esta a loucura. O que se passa é que o humano normal é um “normótico”, potencialmente neurótico, psicótico e louco, encontrando-se nele relativamente equilibradas e sustidas todas as potencialidades. É um ser tensional de tendências abertas que, ocasionalmente, sofre de uma ou outra variação. É, suponho, aquela combinação de potencialidades que pode dar-lhe a sensação de pressentir, por vezes, dimensões que escapam à sua auto-padronização (que lhe é profícua e conveniente, contudo). Inesperadamente, pode ser “assaltado” por alguma daquelas percepções escondidas, abafadas ou sacrificadas numa submissão à normalidade. Mas isso não é o mesmo que invocar uma intercepção, uma detenção ou conquista de outra dimensão – como premonição visual -, a partir de formas enevoadas, da mesma maneira que não se apreende o espaço só por olhá-lo, sem qualquer ocupação trajectiva. Talvez uma confiscação do que está para lá por meio do olhar consinta uma compreensão narrativa, uma exege. Mas isso não é a experiência nem da lucidez nem da loucura. Entendermos, então, a recolha como uma reflexão, uma mediação interpretativa. Já que toda a loucura impõe uma transposição clara, uma entrada por essa porta por onde não se entra e sai a bel-prazer. Nem sabemos se é prazer ou dor.
Apenas pretendia explorar levemente a polissemia de “madness”. O ponto forte daquela postagem eram as palavras, a que chamarei poesia. A insinuação com “madness” é que enfraquecia a força e opulência da versação.
Mas há um ponto em que a leitura atraiçoa: quando a explicação esbarra na compreensão, com ela digladia. As palavras, muitas vezes, ultrapassam o autor, a ponto de, a certa altura, parecerem já não pertencer-lhe. Toda a poesia seria destruída se fosse explicada exaustivamente. Basta compreendê-la, intuí-la. Os seus termos não compõem uma “proposição lógica”, dada a uma análise semântica plena, sem paradoxo, sem absurdo. A poesia vive de ritmo, harmonia, cadência que oculta e, ao mesmo tempo, desembacia e acorda sons e estremecimentos, vibrações que moram no leitor. A sua morfologia e a sua significação não são inteiramente a da gramática e a do dicionário. Nem as suas noções e conceitos coincidentes com a ciência ou com a filosofia. As letras ajuntam-se a construir e a reconstituir palavras polissémicas (no portentoso dicionário Houaiss da língua portuguesa, em 18 volumes, ao consultarmos um sinónimo para uma palavra, encontramos, amiúde, muitos, tantos que, às vezes, ao atingirmos o último, nos parece que encontramos quase o oposto do que pensávamos procurar). Frequentemente, duas pessoas, diante de um verso, dizem coisas diferentes mas sentindo coisas idênticas; também sentem coisas distintas com declarações iguais; esta dissidência decorre de muitos factores. Parece-me, igualmente, que a compreensão resulta da experiência concreta de cada um: não é possível compreender o choro sem ter chorado uma única vez; a injustiça, sem se ter sido interseccionado pela injustiça; o despeito, a raiva, o desamor e o ódio sem sentimentos correlativos. É possível estabelecer analogias sensitivas e experimentais a partir de um miolo de vivências cruciais (como disse para aí noutro local, a experiência – entendida como inovação que supera a expectativa, como dor – é o método, o critério da compreensão. Também uma grandeza hedonista pode dar, depois, alguma realidade compreensiva). De quando em vez, julgamos compreender, mas trata-se de intelecção de conceitos, da apreensão formal de situações ou casos. (Sendo necessária a razão e a lógica, mesmo para o “sistema comunicante do coração”, uma racionalidade “insensível” e bloqueada à existência absorve apenas imagens sem vida, não dinâmicas). Uma compreensão consubstanciada envolve o sujeito que percebe numa alteridade, numa posição em que tem de tornar-se momentaneamente outro, numa aparente contradição consigo mesmo. O real envolve uma mutação algo dialectal. Isso reflecte-se na nossa consciência (cuja característica principal é a reflexividade e auto-escrutínio): a poesia dá conta do real contraditório; por isso (como aludi) é uma forma de ciência.
De facto “transparência ténue” faz alguma diferença na leitura. Não que não a tenha lido, mas aquela está sempre incluída em “transparência”, uma vez que qualquer modalidade da transparência é uma transparência. Por outro lado, dizer que a lucidez implica qualquer forma de transparência, luminosidade, fulgor significa uma redução também da lucidez à sinonímia. Mas ela ultrapassa o seu campo lexical e semântico do sentido visual para indiciar a revelação do invisível, como aquela visão do sono – de imagens ondulantes com névoas nos derredores das coisas – que estabelece uma ideografia da descoberta no ser completo que estreme: que, com tremores, acorda entre o choro e o riso.

antónio paiva disse...

...................

é bela a tua existência


..........................


Beijo e noite serena

musalia disse...

nando

além da polissemia das palavras, que reitero, existe a interpretação do olhar (leitura, de texto, de objectos, de imagens, etc.), individual, não unívoca.
aí está a riqueza da escrita...

e, sobretudo, existe a metáfora, nem sempre captada, é certo...

(claro que não vou dissertar sobre as diferentes 'loucuras' nem outras coisas afins)

agradeço todos as sábias considerações que fazes às minhas humildes palavras. são autênticos 'tratados' ;)

musalia disse...

António :)

bonita a tua presença amiga.

beijinhos.

Nando disse...

Sim, o olhar “interpreta”, é também interpretante. Mas é mais um meio ou faculdade que veicula “outra” interpretação mediada por outras funções mentais. Não consigo, por exemplo, aceder directamente ao teu olhar que vê, já que não vejo os teus olhos. E o que resulta na escrita é já uma reelaboração desse “olhar”. Esse dado sensitivo é fulcral. Mas a interpretação própria do olhar, imediata, é inacessível: quando os olhos olham os olhos, por exemplo, não existe uma narração que dê conta dessa percepção primeira cabalmente. Não há, de facto, nada que compreenda esse olhar; torna-se indizível. Existe, pois, uma visão doada pelos olhos que olham os olhos que é indescritível, inexprimível, e que promove, ainda assim, várias sensações. Contudo, a singeleza e singularidade desse olhar originário – que capta fruindo e decifrando logo – não é lograda. E só pode ser dada por um certo desfasamento, deturpação ou desfocagem que desloca o sentido primevo (quase insondável) numa outra compreensão. A interpretação é, portanto, violadora (como já defendi) e não pode compreender, reflexivamente, aquilo que é ofertado pelos olhos instantaneamente: atraiçoa ligeiramente. Nem conseguimos perceber os nossos olhos quando olham, porque não olham para si mesmos. Só outro ponto de observação o consentiria.
Se admitirmos que os olhos têm a sua vida mesma de ler, toda a outra compreensão é já outra tradução, reformulação, que não compreende totalmente. Por isso, dizia que toda a reelaboração interpretativa, além de violentadora, equivale uma incompreensão, num ponto em que o compreender mesmo é não compreender nunca (em completude, pelo menos). Assim, jamais a compreensão está dada, o que é uma vantagem e motivação para a vida. Sim, não é unívoca, porque a representação em que consiste (re)escrever é uma (re)criação, a qual se torna mais pujante enquanto ficciona o nosso próprio sangue – vida -, enquanto nos reconta, reescreve, historia.
Como ler, de facto, o olhar de uma mãe que olha o seu rebento num choro de comprazimento com a felicidade do mundo do instante? Captamos a expressão, nunca o que vêem.
E, quando lemos o que os olhos dos outros olham – e depois o que é projectado em letras ou figuras -, é, em geral, o nosso próprio olhar que exercitamos, num exercício imaginativo singular. E nem sabemos se isso de ver os olhos dos outros seria uma vantagem sensitiva ou hermenêutica.
Concebo que toco e mexo num corpo que não vejo, estabelecendo-lhe a ortografia e vocabulário: a percepção do tacto que antecede a minha ideia desse contacto tem vida própria. Logo, nem tudo pode ser sujeito à mediação da explicação interpretativa – à sua performance -, que, por razões diversas, está associada à visão. Esta refundição ou rescrita da sensação causada é como um sonho, que tem muita realidade, mas vive senão de corpos virtuais que buscam o seu lugar. (Por isso, disputam o sono, onde estão sujeitos à letra.)
O meu tema, como reparaste, é o da refracção do corpo na era contemporânea, que beneficia sempre a instantaneidade do trans-horizonte, beneficiando o olhar das formas: o sujeito do “pós-movimento”, parado no olhar do movimento das configurações e feições determinadas pela imagem em telas, pelo seu desfile. Há que devolver a percepção ao sentido da totalidade do espaço: ao corpo inteiro, ao movimento. Para depois o reintegrarmos com a escrita.
Mas isto já não tem a ver contigo. Desculpa, pois, se uso “este espaço” para dizer estas idiotices. Mas há sempre uma solução: apagar.

musalia disse...

nando

não apago, nem tenho de desculpar as tuas considerações. cabem dentro da regra de boa vizinhança:)

claro, o cérebro tudo comanda. o olhar não é 'em branco', traz toda uma sedimentação cultural, a análise é sempre vista através desse filtro.
a interpretação, é sempre uma recriação da obra (por isso se diz que é viva, a obra), uma recriação do 'real', sendo esse 'real', apreendido de forma subjectiva (ou seja, já transformado). e é parcelar, evidentemente.

sobre a estética da recepção diz-nos Jauss, continuador de Gadamer:

'Qualquer obra de arte literária só será efectiva, só será re-criada ou "concretizada", quando o leitor a legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio texto criado'
( Hans Robert Jauss, A Literatura como Provocação, traduzido e comentado por Teresa Cruz)

interessante, penso.

o que não é comigo, fica sossegado, então :)

Nando disse...

Excerto, vale dobradamente: por si só e pelo efeito que brota aqui, no enquadramento sequencial dialógico. Alcance que não atinjo comentar cabalmente. Deixo isto: o valor da comunicação epistolar afasta-se da estética da recepção da obra de arte literária. Na epístola, o leitor não é soberano: lê, escreve e lê. Na outra, pode-se amordaçar o autor e dispensar o texto original, tornando-o pretexto somente (para propagar um novo teor). Mesmo quando a epístola resvala pode ser chamada à ordem, pois o seu ciclo de existência diverge da obra literária: vive no diálogo directo, engajada com a sua produção, com o ciclo do fôlego, desenfreada ou contida, vacilante ou desinibida, falível ou assertiva, harmoniosa ou sem traço, com torrente ou degredo, com enlevação ou decaimento. E não está dependente (e condicionada) da existência prévia de um leitor e de um autor (ainda que a montante isso possa achar-se como precedência e motivação), mas de alguém que escreva, “fale”, visto que o seu fluxo é a correspondência. É como conversar, ouvir e falar. E isto é um valor que, no outro caso, tem de ser distado, podendo embora fomentar a crítica entendida como hermenêutica.
(De resto, Jauss, do Círculo Hermenêutico, pouco retém de Gadamer, senão a hermenêutica (filosófica), que este enliçou, no entanto, com a historicidade e tradição e não exclusivamente com o leitor. Logo, não é pré-eminentemente subjectiva.) Por isso, ao perto da epístola, não tratamos de leitor e autor, a não ser desta forma: o autor escreve; depois, vem ao palanque conferenciar, debater directa e abertamente com os “leitores”, com os interlocutores que se apresentam para interpelá-lo produtivamente, e não reprodutivamente. A estesia gerada é diferente. Pode haver percalços comunicativos, com pletora ou desarranjo, ou não, burburinho ou brandas pausas. É nesta publicidade que o autor oferece sob o jeito de colóquio que emerge uma outra estética onde se intromete a epistolaria. Venho por ela, efusivamente. É tenteante: palpa e titubeia sob a estranheza da cegueira e das mãos que não entendem, salvo a opacidade dos símbolos que debuxa querendo significar. Mas defrontam neles próprios excesso de significante. Muita horizontalidade. Devo escusar-me disto, deste sobejo de lentidão que encetei. E da ampla, embora progénita, expressão que lhe dedico.
Agradeço a vizinhança concedida – pois só tu podes dar-lhe conteúdo e oportunidade – e o sossego do que não é contigo que as tuas palavras me outorgaram.

musalia disse...

nando, novamente em desacordo:)
a forma epistolar insere-se, ela também, na ficção. e um emissor pressupõe um receptor. leitor, ouvinte, como quiseres.
os românticos estariam em desacordo, também, eles invectivam, mesmo, o leitor...
a estética da recepção engloba toda a Arte, aqui falamos de literatura, apenas (e já é muito)

quanto ao que te 'outorgo', como dizes, foi resposta à tua afirmação que passo a reproduzir:
'Mas isto já não tem a ver contigo'


uma boa noite.
ah, o Círculo de Constância foi muito profícuo...

Nando disse...

“ Na verdade, o amor de uma quimera é o mais fiel dos amores” . (G. Bachelard – “La Formation de l’Esprit Scientifique)

1) Eu não expendi nenhum argumento quanto à ficcionalidade, ou não, da comunicação epistolar. Se entendes que se inscreve na ficção, como opor? Respeito. Sempre direi que não o é por essência e imperativo, mas por acidente e acaso. A epístola é passível de se inserir na ficção, mas não é forçoso que ali infunde a sua missão. A não ser que não haja nenhum critério para estabelecer o que é ficção, permanecendo algo muito impreciso e elástico, a ponto de, à laia de generalização, o que sobre ela se disser (escrever) também se tornar ficção, desde que seja lida. E, por aí, seria, praticamente, toda a escrita ficção (começando na língua, como ficção primitiva). Mas, quanto à ficção e às palavras, já entreguei as minhas reflexões anteriormente, pelo que me eximo de esgrimir novas considerações. Conquanto não evite estas:
- Se nos abrirmos ao “fingere” latino, encontramos muitas possibilidades, uma das quais começa logo aqui, electronicamente. Ganha um sentido especial, porquanto se impõe uma modelagem, uma construção do outro a partir das palavras, principalmente. Pode variar de tonalidades, flutuar entre a estranheza e a familiaridade. Entre o diálogo e o monólogo. Entre o silêncio e a palavra. Tem alguma coisa de fantástico, mas resulta da liberdade. Apesar de virtual, dispõe de formas e modalidades de sentir, muitas vezes, similares às da vida em cima da laje. Está inclusa no real. Consente que os humores se exprimam, pois pode-se amuar, ressentir, zangar, fugir, gostar, rejeitar… Não se lhe pode abonar, ainda assim, qualquer substância que substitua os canastros – que aqui só podem ser putativas e volúveis recriações - , excepto quando apenas queremos ser, aí, referência imaterial. O risco desta “ficção” é a possibilidade de, pela armação de vestígios, indícios, sintomas, rastos – letras apenas - urdirmos uma quimera.

2) Também seria ousado catalogar a epístola como arte, excepto quando, objectivamente, é uma via literária, isto é, escolhida conscientemente como modalidade expressiva. O facto de ter valorado alguns aspectos dinâmicos da comunicação epistolar como fluxo e ciclo não autoriza a que se estabeleça, naquelas reviengas, uma não ficcionalidade. O que disse é que se trata de uma comunicação que a estética da recepção não pode abarcar devidamente, pela sua instantaneidade, imediatismo (excepto como objecto posterior de leitura, futura, distada temporalmente). Acrescente-se que, como teoria, é somente uma tendência interpretativa, entre outras, não é a realidade ela mesma (tão-só um tentame compreensivo, antes do que explicativo), nem há qualquer garantia que se afirme mais bem do que outras concorrentes. Aliás, a hermenêutica não é o método do reflexo; envolve a reflexividade e a consciência interpretante mediada pela temporalidade. Senão, seria o sistema do condicionamento. Ainda: a hermenêutica não é a interpretação em geral, mas a interpretação dirigida por um método doador de sentido. A estética da recepção é também uma teoria hermenêutica. Dizias que Jauss era um seguidor de Gadamer: este, por sua vez, foi seguidor de Heidegger quanto à temporalidade, cujo contributo foi essencial para a causa da historicidade. Devo concluir que, se a epístola, nos termos em que lhe fiz apologia, se entalhar – nalgum momento – na ficção, o que se passará será apenas leitura, descodificação. É que ler – por reporte à língua - é já um trabalho elementar interpretativo, básico, a pré-compreensão. Mas não é ainda a compreensão, método que supõe e envolve a experiência entendida como inversão negativa reflexiva – dialéctica - na consciência, capaz de produzir e inovar, pela mediação, outrossim, do tempo. Não fui eu que entrei a intimar, de maneira manifesta, o Gadamer e o Jauss para estas paragens. Neste termos, por tudo, a estética da recepção, como hermenêutica, dirigindo-se à arte, pouco diz para o fruidor comum: ela supõe um “jogo” (diz Gadamer), e nem todos estão imediatamente aprestados a jogá-lo. Exactamente como uma partida de futebol: não é pelo facto de se saber dar um chuto numa bola que se é jogador de futebol, ou se detém essa capacidade. Esta aprendizagem e capacidade para o jogo hermenêutico dependem da vida e formação de cada um.

3) Na “forma epistolar”, o emissor pressupõe um receptor. Isso é conveniente, de facto. Tomada a elementaridade prévia de tal postulado – que ninguém põe em causa -, abraça-me uma vacilação “hermenêutica”. Não vá o demo, nestas andanças da noite, pôr-me na boca palavras trocadas, relembro, unicamente, isto: a “forma epistolar”, como preferiste (eu falei em epístola e comunicação epistolar; ou seja, a suposição mesma da comunicação), é largamente usada na administração pública. Amiúde, o receptor escusa-se a emitir uma resposta; após um prazo, a resposta vem sob a forma de deferimento tácito. Ou seja: a resposta realizou-se, mas em silêncio. Apesar da não efectivação de qualquer acto ou denodo deste receptor, ele produz, diz, significa. Portanto, na comunicação epistolar, aplicamos o critério do prazo (que ainda não se encontra, felizmente, codificado, ficando à liberdade de cada um, podendo variar consoante as ocasiões) quer para o deferimento quer para traduzir o sumiço do receptor, escolha que fica ao cuidado e sensibilidade do comunicante que “recebeu um deferimento”, negativo ou positivo.

4) Trago isto à colação, acrescendo: a comunicação supõe um fluxo, um ciclo alargado, não sendo contabilizado pelo débito e crédito de palavras do emissor e do receptor, mas pelo carácter do “círculo”, que fecha, como aludi, com o descaminho do receptor ou do emissor. Na epistolar, particularmente, o receptor posta-se, simultaneamente, como emissor e vice-versa. Lê, escreve, lê, por aí fora. Também aqui não há paridade matemática: um comunicante recebe um estrondo e reage com três, ou ao contrário. O que interessa é a qualidade do ciclo, da sua duração. Inclui redundância e excentricidade, retraimento e omissão, falha e êxito, contrariedade e refluxo. Difere, pelo menos, se quiseres, de outras circunstâncias de escrita. A sua fisionomia é irregular: só a matriz parece estável.

6) Talvez seja Constância: “Eram cerca de meia dúzia de páginas cheias de uma letra agitada, de mulher, mais um manuscrito do que uma carta. Involuntariamente, tacteou ainda o sobrescrito, para ver se não teria ficado lá dentro qualquer página. Mas o sobrescrito estava vazio, e, tal como as folhas, também não trazia nem a assinatura nem a direcção do expedidor. «É estranho…», pensou ele, pegando nas folhas. Como epígrafe ou título, no alto da primeira página, viam-se estas palavras: «A ti, que nunca me conheceste». Parou, admirado. Tratar-se-ia dele? Tratar-se-ia de um ente imaginário? A sua curiosidade despertou e começou a ler”. Stefan Zweig, “Carta de uma Desconhecida.

Finalmente, boa noite


F. Castro.

blá blá blá disse...

bonito