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10.3.08

38,5


A vizinha Isabel chamava-o sempre que alguém desconhecido entrava no café, entrava para se demorar. A vida era a rua estreita e o olhar vivia do movimento que passava. Pedro gostava de conversar com ela. Recordava-lhe o tempo em que as escadas escondiam o vão e o 38 se mantinha unido. E a presença da avó, entre as rendas e os arraiolos. A avó. Parecia sempre zangada, aquela aspereza de quem cresce junto ao mar, defendendo-se da incerteza. Exasperava-se quando ele atirava a mochila pelo postigo da porta e fugia, rindo, rua fora. Praticamente fora ela que o criara, sempre atenta aos seus desejos, contrariando o aspecto severo com a generosidade do coração nas mãos abertas. Agora havia outra porta e meia dúzia de degraus, descendo, para o 5 do 38. Esse pequeno espaço cheio da lembrança da avó, a janela a permanecer fiel aos seus olhos.
No início, a vizinha Isabel perguntara-lhe quem era Laura, de onde viera, tivesse cuidado. Pedro respondera, Laura é o sonho, é a gota de chuva que acalma a sede. Não sabia se a vizinha entendera, a vizinha apenas sorrira. Passara a observar Laura, passara a observar o rosto de Pedro.