31.7.04

O soninho do Artur


Eu não te ensinei a ler, se o tivesse feito terias lido o meu texto, como o Francisco disse...
Mas decifraste a ternura com que te envolvemos. Foste um gatinho muito feliz.

30.7.04

Afago do dia

"O riso das crianças é como o desabrochar de uma flor. É a alegria de receber, a alegria de respirar, a alegria de se abrir, a alegria de contemplar, de viver, de crescer. É uma alegria de planta."

[Charles Baudelaire,  Da essência do riso ]

27.7.04

O flagelo de Darfur


Fuga. Trio bíblico...

Destruição. Em nome de quê e de quem...

Tudo arde, nestes campos...


Junto aos regatos, cresciam livres. Embrulhada em sonhos de criança, a realidade era o que a fantasia permitia. Brancas e lilases, de perfume suave como a candura da infância. As violetas.

25.7.04


Falando de Hokusai Katsushisa...

Os cavalos de Siza

Lindissimo. Os desenhos que o preenchem. Os poemas que os definem. Ou vice-versa. Descobri-o...na FNAC,  en passant,  confesso.  E não resisto a transcrever uns poemas.

Que ondas ou cavalos
avançam pelo mar?

Movimento de crinas
esporas, espuma
relinchos pelo ar.

Bailarinas ou deusas
que bailam por bailar

ou

Há éguas de sol
nas tardes de Domingo
vigiam os filhos
não vá feri-los o vento,
uma folha que caia.

Que coração de mãe
têm as éguas de sol!

ou

Cavalo:
porção de luz
em forma de animal

[in Todos os cavalos e mais sete
 Nuno Higino escreveu, Álvaro Siza ilustrou]

24.7.04


Mais um bocado de mar e céu misturados a recordações de infância. Que irão preencher a primeira quinzena de Agosto e matar a sede do odor de maresia que se evola do marulhar das ondas. Destas ondas. Deste mar.

Estas, também as há no Algarve, mas são as que se debruçam na minha varanda, entre outras matizadas.

Esta imagem é para o Carlos. Afinal, sempre existem universidades no Algarve...

23.7.04


A neve rosada das planícies do norte, transmutada em belas flores de amendoeira, em Fevereiro. Para mitigar as saudades da loura princesa do rei mouro do sul.

Som de memórias

"...e lá fomos, enfiados nos camisolões de lã, apropriados para um espaço aberto e a um tempo em que a fuga seguia o toque a rebate. Zeca, calças de ganga e sapatilhas no à-vontade de sempre, cabelo encaracolado em voo livre de canto e ritmo lançado no empedrado do pátio, em osmose perfeita com os sons da guitarra de Carlos Paredes. Mãos perdidas nas notas dedilhadas, libertando-se da alma e das cordas, figura silenciosa, apagada, ao lado do grito de liberdade em época prisioneira." 
Dois sons inesquecíveis e complementares que não conseguem morrer mesmo depois de terem desaparecido.

22.7.04

Marinhas

 
Fios de luz e sombra em tonalidade cinza tecem imagens transportadas na aragem, de recorte esfumado na paisagem. Junto ao rio, o percurso segue o mesmo caminho e em passos descasados rodeia  a velha torre envolta em odores de maresia. Alcançando a foz, o fio do horizonte desdobra o olhar. Já não toma o reflexo espelhado na água, divisa apenas esse espaço entreaberto, formado no espectro de raios solares aconchegados em ondulação de nuvens. O ar denso, sacode a poalha  dourada avivando os tons escuros de opacidade carregada. Olhando o Tejo, sintonizo o pensamento.

20.7.04

Esse Mar e Jeux D'amour


O mar que se une à ria.
(...)
Viens, mon petit bateau
Flotte, comme un berceau
 
Je veux seulement oublier
Emballe-moi sous les nuages
Doucement vient le soleil
Bonheur aprés l'orage
 
d'Amour
Toujours
Les Jeux
d'Amour
(...)
"Jeux D'amour" in Cinema  (Rodrigo Leão)

19.7.04


As acácias que emolduram o caminho de regresso à infância...

18.7.04

O Morgadinho, na ria.

A lota, junto ao pedaço de rio onde os barcos descansam da pescaria, balançando ao sabor da ondulação dourada que o sol empresta à água. Agora, pequenos veleiros acolhem-se a este espaço, no sossego que o lazer dos donos lhes permitem. Com o tempo e a descoberta deste recanto do rio, cresceram as "tasquinhas" adaptadas das modestas casas dos pescadores, passando a ter, algumas, o nome pomposo de restaurantes.
O movimento da água entrando no espaço aberto quando a maré enchia, fazendo-nos recolher os pés nas cadeiras que não desviávamos, encontrava o aroma do peixe grelhado apanhado há poucas horas e o sabor das ameijoas escorrendo no sumo do limão. O excelente bolo de amêndoa, não o "doce fino" mas o outro, em que a pele se mistura aos bocados do fruto em contrastes de alvura e de canela terminava a tarde, neste por-do-sol e nesta ria. Na tasca do Morgadinho

A ria onde o pôr-do-sol é único.

Ainda os jardins


Recantos de jardins do séc. XVIII, observados sob arcarias de velhos paços.

17.7.04

Negação


Os minutos soavam pela casa. À beira do tempo que se escoava, as imagens espalhavam-se em sequência vertiginosa fazendo-me engolir o café de um trago. De relance, o espelho devolvia a imagem aceitável em encenação perfeita de exterior negando incursões de alma nas costuras bem unidas. Atravessando a rua, largava atrás de mim, esse fio de arame em que o equilíbrio se fazia no cuidado atento de nada fixar e reconhecer para além da atenção concentrada no vazio do olhar. E os espaços, percorridos sem consistência mas em ritmo certeiro, galgavam a vida desses dias em que nada mais era desejável que o cinzento absorvendo o que faltava para o dia seguinte, em repetições a preto e branco. Sem permissões de sombra, porque essas poderiam ser reveladoras.
O barco tomava rumo e sem lhe sentir o balanço a minha presença pairava sob o tom incolor e amortecido dos sons refugiando-se nas páginas coloridas de uma trama qualquer que o livro aberto acompanhava. E lá percorria os caracteres, em personagens reais, as únicas que captavam a minha atenção por permanecerem apenas no interior dos capítulos, sem possibilidade de materialização.  E o cuidado era posto na permanência de histórias que se encadeavam em outras histórias, incessantemente, como se a sobrevivência possível se assemelhasse a essa estratégia antiga de Xerazade. Mas sem príncipes nem palácios.
E os quotidianos seguiam a estrada sem desvios, na determinação de não defrontar outras escolhas. 
 

16.7.04

Eu, que quase vivo no campo!

  
Os raminhos de oliveira, espigas de trigo, papoilas e malmequeres, atados com o orvalho da manhã. Marcavam o início da época estival, essas quintas-feiras de Ascensão!
O meu sono irrequieto espreitava o alvorecer, na claridade sossegada em que a noite se despede do sonho e troca lembranças com o dia. O olhar pisava os trilhos conhecidos e o passo ritmava a vontade de chegar, na manhã que se abria à alegria de colher a paz dos campos e o matizado fauve das papoilas contra o branco-doirado das pequenas flores.
Os rituais ancestrais, estabeleceram elos indissolúveis que mantiveram as memórias vivas no âmago da vivência citadina. E a saudade do regresso é sempre mitigada pela permanência dos perfumes, das seivas, dos murmúrios campesinos abraçados nesse crescer construído em liberdade. Que me saúdam nos jardins que percorro ou naqueles, imaginados, que as minhas palavras me deixam entrever.

14.7.04

Alice no País das Maravilhas

O perfume dourado das acácias faz um túnel na dobra da estrada e esse aroma miúdo de cachos aveludados é a passagem secreta para o mundo da infância. Como Alice descobrindo o País das Maravilhas.
Na distância encurtada, as imagens ganham consistência e o verde ácido das maçãs salta ao caminho conduzindo-me ao espaço inicial da vila, repleto de antigos chorões debruçados nas memórias que o olhar recolhe da paisagem disposta em sucalcos pela serra. Tomo a estrada circundando a velha Quinta dos Lilases, de entrada em escadinhas descendo até à eira onde, outrora, o milho acordava em rodopio lançado em travessuras no rolamento dos patins. Continuo a descer, a frescura do musgo cola-se-me às mãos em pensamentos aquecidos pela lembrança de datas festivas e reponho breves apontamentos de fetos ao longo da ribeira no tamanho gigantesco do imaginário da infância. Até entrevejo duendes e fadas por entre o bosque de castanheiros, que antes me saltavam ao caminho tornando a travessia tão apetecida por parecer tão temerosa!
Do outro lado, o cerro acorda o mistério antigo, de acampamentos solitários de ciganos espalhados na memória entre o cheiro acre de eucalipto. E o sabor embriagado dos sentidos exala-se no vermelho alaranjado do fruto que a minha mão rouba ao medronheiro.
Ao invés de Alice, o meu regresso a casa possibilita-se no sonho.

13.7.04

Jardins

Há quem os olhe como locais de lazer. Eu usufruo a sua paz para momentos de meditação.
Hoje, a pausa do dia levou-me ao lindissimo jardim museu, paredes meias com o edifício onde trabalho. Pouco frequentado, o seu silêncio é apenas entrecortado pelo silvo dos pavões e do bando de patos coloridos que me seguem na esperança de algumas migalhas de comida. Ainda que desenganados pela frugalidade da minha presença, não desistem de me acompanhar e eu prefiro imaginar que se lembram das minhas deambulações do outro lado do velho outeiro, em percursos vislumbrados através do gradeamento que também lhes permite esgueirarem-se noutros espaços. No calor intenso deste meio dia, procuro a frescura da sombra de árvores exóticas, centenárias, testemunhas de tantos vultos solitários como o meu. E este espaço desnudado de ruído, acolhe o meu pensamento sôfrego de paz. Apenas a aragem levanta sons na folhagem das copas, dispersando-os no caminho que os meus passos escolhem.

10.7.04

Esta gente

Esta gente...
Faz renascer meu gosto
de luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

E em frente desta gente...
Meu canto se renova
e recomeço a busca
dum país liberto
Duma vida limpa
e dum tempo justo


(Sophia de Mello Bryner Andresen)

9.7.04

LISBOA

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
As gaivotas doutros dias, barcos, gente
Apressada ou com o tempo todo para perder,
Esta névoa onde começa a luz de Lisboa,
Rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau
.

(Eugénio de Andrade, Escrita da Terra )

Diálogos de cor

" Et dans un tableau je voudrais dire quelque chose de consolant comme une musique. Je voudrais peindre des hommes ou des femmes avec ce je ne sais quoi d’éternel, dont autrefois le nimbe était le symbole, et que nous cherchons par le rayonnement même, par la vibration de nos colorations."

" C’est des troncs de peupliers lilas, coupes par le cadre là où commencent les feuilles. Ces troncs d’arbres comme des piliers bordent una allée où sont à droite et à gauche alignés de vieux tombeaux romains d’un lilas bleu. Or le sol est couvert, comme d’un tapis, par une couche épaisse de feuilles oranges et jaunes tombées. Comme des flacons de neige il en tombe toujours encore. Et dans l’allées des figurines d’amoureux noirs. Le haut du tableau est une prairie très verte et pas de ciel ou presque pas
."

(Vicent Van Gogh, Lettres à son frère Theo )

8.7.04

O FIO DA FÁBULA

O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ele, para o seu amor.
As coisas aconteceram asssim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.
O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade
.

(José Luís Borges, Cnossos, 1984)

6.7.04

O "preto e verde"

Hoje é uma aparição que quase nos espanta, o "preto e verde", entre a monotonia da cor creme que corre os espaços da cidade. As conversas com estranhos, pouco habitual em mim, produziam-se no breve caminho entre a partida e a chegada, na ponte que se estabelecia entre o trabalho e o mundo da Arte. Era o desabafo de pessoas aprisionadas no quotidiano desenrolado sobre rodas, galopando as distâncias de quem se mostrava em pressas de chegar. E eram os filhos que trilhavam caminhos pouco seguros, as prendas que se ofereciam à mulher nos dias festivos, a vida dura de condutor de destinos, as opções políticas e as soluções infalíveis, eu sei lá que mais! E a conversa, propiciava-se, desejava-se, como calmante de tanto nervosismo acumulado nessa ânsia de não chegar demasiado tarde, por vezes, a lugar nenhum.
Ontem à tarde, apressada e sem opção de outro transporte, os meus passos conduziram-me, maquinalmente, ao local onde se avistava a mancha creme em fila certinha e obediente. Liderada pelo "preto e verde". Embrenhada na minha pressa, estaquei reflectindo se não errara o caminho. Mas sorri, reconhecendo o antigo bicolor, e entrei para, mais uma vez, ansiar pela chegada.

4.7.04

23.

" Era alta e loira. De onde conhecia esta mulher tão bem? Durante a viagem, mais de cinco horas, martirizei a memória em vão. Saímos e, quando a perdi de vista, lembrei-me logo de que a conhecia de um romance, de um clássico americano. Procurei-a com o olhar mais uma vez mas apenas vi uma multidão de personagens e nenhum vestígio dela. Como era possível uma personagem ser tão diferente das outras? Com esta pergunta atravessei a cidade, voltei para o aeroporto sem dar por isso. Alguém me agarrou o braço, vi na minha frente uma flor azul enorme, depois a flor ficou desfocada e uma onda de palha de trigo, ou talvez de aveia, tapou-me o horizonte. Senti um beijo, e logo a seguir senti-me uma personagem: a loira sorria para mim, aparentemente encantada, ou pelo menos feliz - eu próprio tinha-me perdido de vista..."

(Dimítir Ánguelov, Sol Oposto )

2.7.04

SOPHIA

Atlântico

Mar
Metade da minha alma é feita de maresia



No mar passa

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente
.

Arte Poética

"(...) Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão. "

" Em Lagos em Agosto o sol cai a direito e há sítios onde até o chão é caiado. O sol é pesado e a luz leve. Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água. "

"(...) A loja onde estou é como uma loja de Creta. Olho as ânforas de barro pálido poisadas em minha frente no chão. Talvez a arte deste tempo em que vivo me tenha ensinado a olhá-las melhor. Talvez a arte deste tempo tenha sido uma arte de ascese que serviu para limpar esse olhar.

A beleza da ânfora de barro pálido é tão evidente, tão certa que não pode ser descrita. Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal duma verdade da qual ela não pode ser separada. Não falo duma beleza estética mas sim duma beleza poética. (...) Olho para a ânfora na pequena loja dos barros. Aqui paira uma doce penumbra. Lá fora está o sol. A ânfora estabelece uma aliança entre mim e o sol.

"(...) É por isso que eu levo a ânfora de barro pálido e ela é para mim preciosa. Ponho-a sobre o muro em frente do mar. Ela é ali a nova imagem da minha aliança com as coisas. Aliança ameaçada. Reino que com paixão encontro, reúno, edifico. Reino vulnerável. Companheiro mortal da eternidade. "


Sophia de Mello Bryner Andresen
2 de Julho de 2004