29.6.04

MEMÓRIAS EM VINIL

"(...) Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu
?"
(Ruy Belo)


Em 45 rotações, com o pó a entranhar-se nas notas. Rasgando o silêncio, vozes de outrora ecoam nostalgias presentes em melodias do passado. Retalhos de vidas, cosidos nas notas de música. Instantes que se encadeiam e enraizam em nós fragmentos, imagens de outras épocas. E à medida que o som avança a memória percorre, em sentido inverso, as rotações dos pequenos discos de vinil, colando-se-nos à pele, em flashbacks revisitados. No final, a fita desenrolada de memórias tem o sabor de desarrumo, de exposição inútil que só faz sentido quando não temos mais espaço para gravar as nossas próprias memórias. E são sons transportando excedentes de imagens, extravasadas de sentimentos, religiosamente guardadas, qual Cinema Paradiso.
Coleccionar, recolhendo pelos cantos da casa e da alma, o som implorante de ne me quitte pas, os passos de la valse à mille temps e os destroços de um amor de milord. Ou o aroma de planter café, em voz cálida, que nos tropeça o desejo.
Afinal, são sons, como tantos outros, que quebram os silêncios, o de Sara, interior mas palpitante, o de Ana, em palavras não ditas mas entendidas e o meu, entretecido de memórias herdadas e de outras, que eu juntei no dia-a-dia dos meus dias.

28.6.04

O SILÊNCIO

Pensamentos que podiam ser meus ou teus...

"328 Uma casa retirada, um pátio de mosaico, um silêncio a envolver tudo. E é isso, o silêncio, o que ressuma do todo que me retém o olhar contemplativo. Penso-me então a absorver esse silêncio que possivelmente não existe senão do lado de cá em que o imagino. De todo o modo penso que seria bom experimentá-lo, ao menos enquanto dura em mim a ilusão do seu irreal. Mas sempre é assim. A ilusão dura um pouco, enquanto a realidade a não gasta. O silêncio imaginado no ruído da cidade e que no campo se consuma até que o próprio silêncio comece a fazer ruído. "

"293 A melhor forma de não ouvires aquilo que te incomoda é não o ouvires. "

(Vergílio Ferreira, Escrever )

26.6.04

A VERDADE ESCONDIDA NA IMAGEM...

"As cidades e os olhos. 1.

Os antigos construíram Valdrada nas margens de um lago com casas varandas todas umas por cima das outras e ruas altas que fazem assomar à água os parapeitos em balaustrada. Assim o viajante ao chegar vê duas cidades: uma direita sobre o lago e uma reflectida de pernas para o ar. Não existe nem acontece coisa numa Valdrada que a outra Valdrada não repita, porque a cidade foi construída de modo que todos os seus pontos fossem reflectidos pelo seu espelho, e a Valdrada na água contém não só todas as estrias e os remates das fachadas que se elevam por cima do lago, mas também o interior das casas com os tectos e pavimentos, a perspectiva dos corredores, os espelhos dos armários. Os habitantes de Valdrada sabem que todos os seus actos são ao mesmo tempo esse acto e a sua imagem especular, a que pertence a especial dignidade das imagens, e esta sua consciência proíbe-os de se abandonarem por um só instante ao acaso e ao esquecimento. (...) O espelho ora aumenta o valor às coisas, ora o nega. Nem tudo o que parece valer muito por cima do espelho consegue resistir quando espelhado. As duas cidades gémeas não são iguais, porque nada do que existe ou acontece em Valdrada é simétrico: a cada rosto e cada gesto respondem do espelho um rosto ou um gesto inverso ponto por ponto. As duas Valdradas vivem uma para a outra, olhando-se continuamente nos olhos, mas não se amam
. "

(Italo Calvino, As cidades Invisíveis )

25.6.04

ARQUITECTURA E MÚSICA

"(...) subtiles analogies qui unissent l’irréelle et fugitive édification des sons à l’art solide..."
(Paul Valéry, Eupalinos )

As minhas pesquisas em Arquitectura levaram-me a peregrinações singulares e a recordações inesquecíveis. Afastado o bulício semanal, os domingos ofereciam a calma necessária a essas incursões e lá ia eu, imbuída de verdadeiro espírito investigador. Um dos objectivos englobava a descoberta das obras de estucaria de João Grossi, em igrejas e palácios e as zonas da Baixa e do Bairro Alto continham alguns exemplares de ornamentações do mestre italiano. Numa tarde solarenga, desci calmamente a Rua Garrett depois da pausa irresistível na Brasileira para um aroma de café e, deixando para outro dia a visita à Igreja dos Mártires, comecei a subir em direcção ao Carmo. Logo no início à esquerda, detive-me na soleira de uma igreja abrigada na sombra de uma árvore. A memória reconhecia-a, sempre ali estivera embora nunca a tivesse visitado. A curiosidade surgiu pela presença de um grupo de quatro pessoas, duas delas com instrumentos musicais, que desciam a calçada e, com ar decidido, franquearam o portal. Fiquei curiosa, a perspectiva de um concerto de música sacra aguçou-me a vontade e entrei. A nave estava apinhada, assim como os espaços laterais, mas consegui um lugar junto à entrada e sentei-me em expectativa. Junto ao altar reconheci o quarteto, as presenças masculinas haviam retirado os instrumentos musicais, duas guitarras, e alternavam com duas figuras femininas que se mantinham de pé, silenciosas. Perante o meu espanto entrou o sacerdote e deu-se início a uma inusitada homilia. Poucas foram as palavras introdutórias e, no espaço do templo ouviu-se o som das vozes e das guitarras que entoaram, em fado, o ritual que eu conhecera até ali.

23.6.04

O DESERTO

Nunca estive no deserto, não nesse deserto. Mas longe dele ofereci-te a sua imagem para que ficasses próximo. Não que desejasse seguir-te, não poderia, apenas te acompanhava no movimento das mãos em palavras desenhadas pelos dedos esguios, douradas de grãos de areia colhidos na pequena cratera que o vento sulcara. E partilhava, no brilho gaiato do sorriso a sombra que o sol estendera ao afastar-se. Essa imensidão enraizara-se-te na alma e escorria como um sulco, gravado pelos passos percorridos, não permitindo outra estrada que esse trilho reencontrado ao amanhecer de cada dia. E as horas eram sugadas na voragem de um quotidiano louco que não querias diferente, no desajuste de tempos e espaços. Abraçavas a tristeza como uma sombra de que não era possível afastares-te e mergulhavas no deserto que a imagem te devolvia e que eu, tão carinhosamente, te oferecera.

A PAZ DE SARA

Eu podia matar o frade. Eu podia devolver à vida o amado de Florinda. Eu podia até apagar a Florinda das folhas desse romance. Mas nem assim tu terias paz. Porque a trama continuaria viva na tua cabeça. Por resolver. Por descodificar.
O ciúme. Sempre o ciúme a tomar conta das relações e a subvertê-las. O "arquétipo do drama do ciúme e do ciumento e ao mesmo tempo do ciúme como tragédia" como diz Eduardo Lourenço. Florinda ama quem a ama mas não ama aquele que a vai ferir por amor. Ou por ciúme. Neste caso o amor realiza-se, possibilita-se, através da morte, não de Florinda mas do rival. Mas é um amor unilateral em que pode até realizar-se o estado catártico que justifica o acto do ciúme e provoca o reencontro do indivíduo, mas não aquieta quem mata nem traz a paz de Sara. Porque essa só será alcançada quando Florinda, o frade e a tragédia se diluírem nas páginas não do romance mas das outras que Sara constrói cuidadosamente, lentamente, mas de forma segura e reflectida.
E se o frade interrompesse a sua narração, tu inventarias uma qualquer continuidade, talvez Florinda se acolhesse no seu amor ou, pelo contrário, se tomasse de amores por quem não ama. E então, quem matou sofreria o ciúme de quem personificou a justificação dessa "tragédia suspensa" à espera da tua interpretação como acto extremo. Mas apenas inverterias o processo que te tira a paz.

21.6.04

HOW GREEN WAS MY VALLEY

Era daquelas estações iguais a tantas outras, indistinta e quase suspensa na curva da paisagem. O sol roçava já o caminho percorrido desde as primeiras horas da manhã e
não sabia ao certo quanto tempo teria ainda de esperar pelo próximo comboio. Deslizei no banco e recostei-me na lassidão da espera, fixando a porta envidraçada que se abriria à minha curiosidade. O reflexo do vidro revelou aos meus olhos semicerrados a frescura do pequeno bosque de cedros que se estendia para lá da plataforma. Ensaiei alguns passos, embrenhei-me nas colorações da folhagem acolhendo o caminho que me protegia os pensamentos e me conduzia ao vale. Pequenos ruídos fragmentavam o silêncio, acordando os campos e baloiçando a erva em movimentos dourados, de despertar solarengo, que atingia já as torres do castelo no sopé do horizonte. Desci, apoiando nas sebes o desejo de escutar o som da pequena ponte sobre o riacho, encurtando a distância entre presente e passado. Corri o olhar sobre o prado, respirei o colorido dos lírios e abracei o perfume dos cachos de lilases debruçados na memória secular das pedras. Os passos deixaram para trás o murmúrio da paisagem e acompanharam o deslizar da vereda, continuando o percurso inicial. Assomado no caminho, o salgueiro protegia a cancela estreita, apenas revelada pelo sussurro da manhã plenamente desperta. A minha mão estendeu-se ao de leve, libertando o espaço e cruzando a passagem, mas deteve-se na impossibilidade de continuar. O desenho do vitral terminava ali, a progressão do tempo quebrara os fragmentos do vidro.
O combóio anunciou a chegada e, lentamente, o meu olhar desviou-se da porta envidraçada. Levantei-me e entrei.

20.6.04

KAIZER SOSE

"...a cada vez mais nossa Musalia."

Acho que foi das coisas mais bonitas que me disseram. Porque pressupõe a atenção de quem está do outro lado da escrita mas, igualmente, a atenção de quem escreve. De tudo o que se diz nessa escrita e da receptividade de quem lê. E eu estou sempre atenta ao vosso blog e ao que perpassa nos vossos posts. E é muita coisa, é muito sentido, é muita vida.

Não vou agradecer, já o fiz. Pela atenção com que sempre vos escutarei.

16.6.04

AINDA PATCHWORK

Franjas esquecidas na contracapa, mas que recupero aqui, agora.

It's been nice not Knowing you. Truly, the best of both worlds in one. Smile when you care about. "Last laughs" feel good, that's very true, And to have the "last word" can satisfy too.

PATCHWORK

O que se nos depara quando fazemos arrumações.Pequenas frases que cairam, em determinada época, no olhar do dia a dia, sem propósito algum a não ser o de guardar considerações, aparentemente ligeiras, habilmente humorísticas e, talvez por isso mesmo, tenham merecido a minha atenção. Pelo menos, hoje, valeu-me um sorriso...

" a friend? A friend is someone who tells you the truth, but not the whole truth and nothing but the truth. When something valuable goes out of your life, something more precious enters. GO AHEAd, EVERYONE ELSE DOES. If it's not broken - take it apart anyway and lose some of the pieces, then it will be. You can't have the best of everything, but you can have the best of somethig. A movie? Sure...I love popcorn. I fought the lawn and the lawn won. It'll know you care even when you don't talk to it. IN THIS HARD, HARD WORLD FILLED WITH HARD-NOSED BOSSES, AND HARD-HEARTED LOVERS. Changing her mind is a woman's prerogative. Reach for the skies. Think Of It As Instant Shade. Revenge isn't all black and white. Choices give you real color control. It means caring for each other and building bridges of trust... Are you a dreamer or a dreader? A tomorrow you can depend on. Leap Into The Light. Thanks for being there for me. I love you. It's Always Nice To Find a Familiar Face In An Unfamiliar Place."

Nota: As frases foram transcritas exactamente como as coloco aqui e não fazem parte do mesmo texto. Foram retiradas, absolutamente at random, de variadas origens.

15.6.04

DYLAN T.

São breves. São poucos. Ainda. Mas são construídos com o afecto que se esvai no teu sorriso.

Vou reproduzir o teu post neste meu espaço, que é pequenino demais para conter as tuas palavras:

"HERMENÊUTICA DE ALMA

As alegrias e tristezas mais marcantes vivi-as sempre numa turbulência tranquila. Por ter presente que existe uma natureza indissociável entre ambas, completando-se, dando-se consistência. Como em tudo, sempre me guiei por afectos, intocáveis, de geometrias demasiado pessoais. Mais importantes que a sua adequabilidade, pragmatismo e futuro, análises que ficam para outros dimensionadores, conjecturas ausentes de alma, que cada qual se entenda com a sua.
No domingo venceu um desses afectos, De justiça brutal.
Tranquila.
"

ENTRE OS PINHEIROS (II)

Continuo a divagar neste espaço que me encontra todos os dias. Quantos séculos de viveres e sentires, se cimentam nos percursos que me levam não sei onde. Descobrir ou reencontrar, afinal?

"(...) Ô nostalgie des lieux qui n'étaient point
assez aimés à l'heure passagère,
que je voudrais leur rendre de loin
le geste oublié, l'action supplémentaire
!"
(Rainer M. Rilke, Frutos e Apontamentos)


Repetir os caminhos, refazer memórias, desconstruir o passado para construir o presente. Que amanhã se torna já perecível.

"(...) Revenir sur mes pas, refaire doucement
- et cette fois, seul - tel voyage,
rester à la fontaine davantage,
toucher cet arbre, caresser ce banc
..."
(Rainer M. Rilke...)

.....neste espaço que acorda entre os pinheiros...

14.6.04

ENTRE OS PINHEIROS

Entre os pinheiros o olhar roça o horizonte abarcando a nesga de água que adormece nesse espaço. Lentamente o barco recolhe o movimento das ramadas e o odor penetra nos meus pensamentos enquanto atravesso o pátio. As velhas pedras, sombreadas pelo lilás dos jacarandás, guardam os segredos que tento descobrir em percursos dispersos e silenciosos. Percorro os degraus da longa escadaria de pedra, a frescura de claustro faz-me retroceder no tempo e visões de sombras e de vozes perpassam na poeira que se escoa através das janelas biseladas.
Regresso ao horizonte e embarco no movimento da água.

13.6.04

O ÚLTIMO VOTO

Nesse dia corri, corri contra o vento até exaurir o fôlego, na impotência de te ajudar. Quase como que a penalizar-me pela vitalidade que, aos poucos, se ia separando de ti.
Por isso sempre me toma um sentimento de pânico em dia de eleições. Por essa imagem, a última do teu último voto, olhos ensombrados não pelo desânimo que esse nunca demonstravas, mas pela recusa de uma vida menos digna pela doença te negar autonomia. Tu que, orgulhosamente, lideraras o teu percurso, sem ajudas, numa determinação de construires sozinho os muros que nos protegiam. E o teu olhar encontrou o meu, e eu senti-me perdida em fúria, impotência e culpa pela minha vitalidade não te emprestar a força que te faltava. Mas o que mais me atingiu foi a sombra de desgosto por expores aos outros a tua fraqueza. Engoli as lágrimas, e consegui não esboçar o gesto de ajuda que começara a delinear e que sabia tu irias recusar num movimento áspero. Não por falta de amor, sempre nos amaste a todos profundamente, pretendendo embora distanciares-te dessa proximidade que te assustava como que a protegeres-te dos afectos, mas porque para ti o estabelecido e natural era o teu cuidado velar por nós. E lá te arrastaste, tremulamente cruzando o pequeno quadrado em que nunca vacilavas. E hoje, quando cruzei o mesmo espaço, adicionei o teu gesto, como sempre faço, perpetuando a tua vontade no mesmo pensamento que nos unia e que me ajudaste a construir ao longo da vida.

Mas nesse dia, corri, corri contra o vento...

9.6.04

O INELUTÁVEL

Perdeu-se um homem, mas perdeu-se um Democrata e uma Contribuição Válida à Sociedade e ao País.
Também acontece aos melhores.
Por todas estas razões e mais algumas, estou de luto.

7.6.04

O CARLOS, O NÃO-BLOG E O BIGODE

O Carlos tem bigode, não tem blog. Mas onde espreita o bigode que o Carlos diz que tem? No século dezanove! No convento, pois claro, que a procissão das freirinhas com as indispensáveis alminhas, põe-se em biquinhos de pés no claustro da Aninhas porque o Carlos não tem blog! Mas o Carlos tem bigode? À século dezanove! E as andanças das moçoilas que por não terem bigode, ensaiam a chamateia no Convento da Esperança, acabam não no blog mas na casinha de campo do Dâmaso do bigode. Mas, e o Carlos? O Carlos não tem blog, tem bigode!

Com que então não temos jeito para a escrita? Gostei muito de ler, para que saiba! E desculpe a brincadeira, mas não resisti...

6.6.04

A MINHA OUTRA CIDADE

Arrumei o que ficara, despi a alma de lembranças e cruzei o espaço. Queria-me liberta para te receber e me tomares, só assim as tuas memórias permaneceriam incólumes e infinitas.
E avassalaste-me. Percorri-te sôfrega e ansiosa inebriando-me a cada amplexo de cor, antecipando as esquinas de paixão que o meu olhar descobriria no teu corpo, em gestos apressados, de quem se quer diluir no teu perfume. Para depois regressar a ti e, já sem pressas, aprender a soletrar o teu prazer.

Na antiga feira, descendo Václavské námesti, às conversas misturava-se o sabor das avelãs partilhadas nas impressões que as telas ofereciam em explosões de cor. Sob a doçura de Mostecká, o velho arco, o passo afagava o lajedo que conduzia a Staromestské onde, na explanada, o gole de cerveja sabia a fim de tarde sonhado nos acordes mozartianos.
A névoa romantizava os teus contornos, e em Mariánské, a velha catedral acolhia o repouso solitário que por momentos me tranquilizava a descoberta. Aí ficava, perdida em pensamentos, acariciando o respirar das minhas sensações. Mas era no Inverno que mais me seduzias. Karluv Most abraçava o rio Vltava num amplexo de magia prateada e lá no cimo, em Prazskýhrad, espreitava-te desdobrando o meu espanto perante a beleza serena que me entontecia.

És a referência que me norteia e à qual volto, sempre que me sinto perdida.

2.6.04

I AM NOT WHAT I AM

Os sons da "Canção de Desdémona" (The Willow Song) permanecem no silêncio da sala, muito depois de Renée Fleming terminar a ária.

O que mais me fascina em Othelo , de W. Shakespeare, é, sem dúvida alguma, a figura de Iago. Manipulador inteligente de emoções, torna-se o encenador da própria tragédia, determinando os papéis que cada personagem vai representar, contracenando depois com elas.

Ser e parecer, a arte da aparência, uma das temáticas preferidas de Shakespeare, magistralmente interpretadas por Iago, assumida no monólogo solitário da sua própria reflexão: I am not What I am . No final, remete-se ao silêncio, From this time forth I never speak word. Demand me nothing:what you know, you Know, em desprezo total pela sua própria sorte.

1.6.04

ESPREITANDO OS BLOGS...
musalia7@hotmail.com

São um trio, D. Urraca, Dylan T. e Keizer Sose. Blogue que promete,ironia, críticas bem atiradas e espírito vivo. Até aqui, não detectei erros ortográficos nem a troca de letras, como anunciam. Dou-vos as boas vindas e, ao trabalho!

P.S. Enquanto não descubro o que fiz de errado no link, deixo o contacto do trio: http//aloiranaogostademim.blogspot.com
AINDA NÃO
musalia7@hotmail.com

O fim de semana anunciava-se relaxante. O cansaço acumulado durante os últimos dias fez-me aninhar confortavelmente em casa, abraçar o meu canto, desejando apenas usufruir desse estado em que tudo flutua e em que nada nos prende os sentidos. Porém...

Há muito desejava revisitar Akira Kurosawa e o belissimo Ainda Não. Enrolei a preguiça, segui o fio narrativo e deixei-me contaminar. A sequência das imagens metafóricas confirmou o deslumbramento da primeira vez. Absorvi o decorrer da história, interseccionada pela canção, quase com função de coro premonitório, "(...) veloz passa o tempo/os meses e os anos (...) no Jardim da Sabedoria (...) o salgueiro cresceu, atingiu a sua altura máxima", a exaltação da personagem principal "(...) nem todos são grandes homens, mas um grande homem tornou-se professor (...) pensamos em tudo o que lhe ficamos a dever" e fixei-me no ponto de viragem para o sonho, flashback de uma vida e prenúncio de algo que morre para poder renascer.

A partir daqui, o campo semântico é reconstruído pela beleza metafórica das colorações do céu em pano de fundo onde se desenham os três planos simbólicos dessa vida: no primeiro, a infância do protagonista, no jogo infantil de esconde-esconde, o intermédio, no sopé da montanha onde a vida se vai desenrolando e repetindo e, mais próximo da linha do horizonte, o cume da montanha como ponto de chegada mas, também de transformação. É essa linha do horizonte que o professor/criança contempla, onde se desdobra o jogo "Posso? Ainda não!", eivado de uma multiplicidade de sentidos que se dispersam entre a aprendizagem, o amadurecimento, a perfeição e a rebeldia de quem nunca está pronto para partir.

Em final impressionista, em que as tonalidades do céu transmitem não as impressões da luz mas as marcas que a vida vai imprimindo ao longo do tempo e que se determinam em pinceladas entre o ouro e o rosa do amanhecer, reflectindo, em crescendo, os verdes, os azuis, os violetas e os arroxeados sobre fundo que escurece. Para, no momento final a cor regressar, lentamente ao rosa dourado inicial, como continuidade de um ciclo que se renova infinitamente. E, o lindissimo L’estro armonico de Vivaldi (concerto 9 in D Major, op.3) acompanhando, subtilmente todo o filme.

Afinal, fim de semana de impressões em percursos que me convidaram o olhar. Outros olhares, decerto, lhe acrescentarão o sentido.