30.9.04

Ansiedad


Ansiedad de tenerte en mis brazos
musitando palabras de amor.
Ansiedad de tener tus encantos.
En la boca volverte a besar.
(Nat King Cole)

...recordando canções de outrora, em versões de hoje. Afinal, a ansiedade é a mesma.

29.9.04

a laranja


As montras retribuíam a sua imagem, gasta, agasalhada em desânimo, de quem não lembra épocas festivas. E era Natal. Suavemente deslizou por entre o burburinho das ruas, desviando o olhar dos risos pendurados nas palavras, trocadas entre quem enchia o empedrado de distâncias que se deixavam percorrer.
A tarde ia pelo meio, subia suave em tonalidades cada vez mais opacas, espalhando as últimas résteas de luz, projectadas em sombras nas paredes das casas. O tempo corria e as mãos vazias não achavam a forma, o desenho de ideias. Nem a casa, acolhida no recanto da rua, acalmava a ansiedade que lhe atormentava o pensamento. Encostada aos degraus de pedra, ganhara-a em heranças desavindas onde a lei não contempla carinhos nem memórias. Mas vencera, alguém a ajudara, sem pedir recompensas nem dádivas. E agora, por ser Natal, desejava um mimo que demonstrasse a gratidão que lhe ia na alma.
Pousada no patamar da escada, florescera a laranjeira e os frutos redondos, túmidos, há muito se tinham consumido na mesa parca das refeições diárias. Acariciou a folhagem, em gesto grato . O movimento da cabeça acompanhou som de algo rolando nos degraus. Apanhou a laranja que caíra, um sorriso iluminando a tristeza do rosto. Fez o caminho de regresso. Olhou a placa e tocou a campainha da porta. Perante o olhar surpreendido, estendeu a laranja e balbuciou:
- Não tenho mais nada para lhe oferecer.

28.9.04

cor e ausência


(Everton, Chalk-a-Chalk )

Há entre as oliveiras sítio para o sol
E a brisa da infância canta rindo nos ramos
Entre o cheiro do giz e as canções da escola
...
(Ruy Belo)

O quadriculado, de fino risco negro, dividia as folhinhas em sonhos amarelo, rosa, verde-água e azul. Descobri assim, outros espaços, onde a imaginação podia navegar sem restrições de cadernos pautados, ausentes de cor. Tal como as borrachas trincadas em impulsos irresistíveis, tinham um novo sabor, a fruta e a flores.
Traçei nessas cores, esboços, construções que a vida desviou, mostrando que o arquitectar raramente se coaduna com os sonhos. Vai-se equilibrando, acolhendo na paisagem da alma, onde os desejos são o impulso criador da realidade que nos cerca.

Ainda hoje, persigo as cores, as formas, as texturas, que moldam as palavras que me habitam. Como se uma ponte entre o que guardo e o que exponho, se possibilitasse apenas nesses fios de tear único, em que todo o colorido se reúne.
Em recusa da ausência.

27.9.04

a guerra das especiarias


Há muito que lhe notava um tom amuado. Inclinada, recusando o lugar que lhe destinara, caía-me de propósito nas chávenas do chá, deixando aquele aroma enjoativo de baunilha. Tentei colocá-la, apertadinha, entre o raminho de hortelã e os coentros, mas nada, exigia o lugar que lhe competia junto à prateleira das especiarias, no lado oposto da cozinha.
Mas havia um problema, o pequeno escaparate de madeira acolhia os parzinhos já concertados e a lotação excedia o aceitável. A velha prateleira vergava-se ao peso de tanta cor e animação. Só havia um jeito. Comprar novos frascos, esguios e altos, e pôr de lado as curvas sedutoras das bojudas caixinhas de vidro. Deitei mãos à obra, fui ao IKEA e lá encontrei as formas e as quantidades requeridas. Mudei tudo e dei o lugar tão desejado à vagem de baunilha.
Andava radiante! De manhã, despertava ao som mavioso do dueto das flores de Lakmè, para o qual seduzira a voz maviosa da canela. E era um encanto, os versos harmoniosos, viens , Mallika, les lianes en fleurs / jettent déjà leur ombre /sur le ruisseau sacré qui coule, calme et sombre /eveillé par le chant des oiseaux tapageurs, saltitando dos frascos e enchendo as prateleiras onde todas as especiarias se alinhavam. Mas o cravinho da Índia, aproveitando a distração da malagueta, começou a afinar a voz lançando olhares lânguidos à baunilha, tentando seduzi-la com o belissimo la ci darem la mano e, aproximando-se perigosamente da beirinha, tentava recolher na sua, a mão da vagem perfumada. Engano seu, ela só tinha olhos para o alecrim, cheiroso, esguio e escorreito. Como tudo é desencontro nesta vida, os olhares do alecrim recolhiam apenas o brilho afogueado da paprika que, dardejando em arroubos de ciúme, lançava bem alto a sua ira advertindo, l’amour est un oiseaux rebelle qui n’a pas de loi / si tu ne m’aiimes pas et moi je t’aime, prends garde à toi ! E neste estontear de libretos, o açafrão acenava em desagrado suspirando la donna è mobile.
O sossego transformou-se em desatino e a harmonia em confusão. A vagem de baunilha voltou para a prateleira, junto ao fogão e tudo regressou ao normal. Mas não me perdoa, hoje, já me caíu duas vezes na caneca do café.

26.9.04

esplendor na relva


... o vento sussurrou de amor na planície extensa. Correu em volta, ateou chamas no verde dormente. No toque sedoso de pétalas cálidas, despertou carícias, gestos, trocados em dança de sedução. E a paixão já enlouquecida, elevou-se em espiral, transformando-se em rubro esplendor na relva. Neste domingo luminoso...

25.9.04

Vedutte


(Monet, Les gondoles à Venise )

Lançando amarras no cais de brumas o meu pensamento voga entre os canais de Veneza. A névoa húmida e azulada envolve ainda o Palazzo dei Dodge contrastando em tom, ao rosado de uma manhã que desperta apenas. Partículas de luz soltam-se, acariciam a fachada do Ca D’Oro, dourando os vitrais multicores por onde o sol espreita. Nesse encontro de cores, o azul da noite que se esvai e o rosa da madrugada que se instala, eu aninho o olhar, aconchego-me ao movimento da gôndola e embalo os sonhos numa ausência pálida. Percorro meandros de dúvida, rasgando a incerteza de um caminho ainda por descobrir. E sob as pontes que ligam oriente e ocidente a minha gôndola desliza, unindo duas rotas que se cruzam.

23.9.04

sempre que chegas...


Sempre que chegas, instala-se o desassossego. Na alma, nos gestos, nos silêncios. No desdobrar de pensamentos. E enquanto te sigo nas veredas desse afecto, estendo sonhos e colho os versos que espalhas por aí, tentando imaginar que são dádivas de um outono que me invade, lentamente. Nesse amor imaginado, a brisa de um desejo, estremece, transtorna, sacode a indiferença acomodada na curva dos meus passos. Repouso nesse instante, nesse olhar inquieto em que agito sentimento, ternura e ânsia de sentir. Para de seguida, enrolar essa inquietação que me toma de me envolver totalmente nos teus braços, de encostar vontade, paixão ao teu peito e deslizar nessa vertigem inventada. E deixar de me encontrar apenas no meu corpo.
Sempre que partes, corro a cidade, protejo-me nos recantos habituais e tento respirar na solidão a acalmia, só ela me devolve o equilíbrio

edifícios citadinos


(anonymous, La Piazza delle Erbe di Verona)

Architecture (...) We may live without her, and worship without her, but we cannot remember without her.
John Ruskin

Os passeios são estreitos, na Rua da Junqueira. Casas contidas pelos muros seculares, esquadrias bem traçadas, janelas olhando o rio ou espreitando os passos de quem segue. São muitas as memórias ribeirinhas, acolhidas na proximidade do Tejo, desenhadas em velhas construções de paços, casas senhoriais e habitações de veraneio.
De há muito, são longas as conversas entre o meu olhar e as casas alinhadas, correndo a rua, em janelas de cantaria rasgadas na superfície murária, brilho de azulejaria separando espaços, enquadrando as aberturas. Algumas, conservam ainda os lintéis marcados por rosetas esmorecendo em lágrima nas prumadas laterais. Há uma que namoro longamente, percebendo épocas diversas e evoluções de passagem de século. Baixa, de dois pisos, guarda o cunho dos velhos mestres do Infantado, embora maltratada, em desvios de riscos severos, pombalinos. No piso superior, janelas de sacada, guarnecidas por belos gradeamentos de gosto francês, demarcam a sua posição de privilégio. Despontando na beira magra do telhado, ainda visível, um outro piso foi acrescentado, não mantendo já a traça inicial.
Posso seguir os acrescentos, as evoluções na construção, mas não detecto vestígios de quem as habitou. Não as descobre o olhar. E quedo-me, em interrogações sobre esses passados, essas vivências esquecidas que as paredes não guardaram e o exterior excluiu. Na impossível permanência de pessoas, de viveres e, sobretudo, de pedras desavindas em alçados transformados em mantas de retalhos.
E ao passar, na Rua da Junqueira, os passeios estreitam mais a descoberta.

22.9.04

quando falham os ingredientes...


Ontem, a nossa relação chegou ao fim. Ao longo de seis anos, o quotidiano que se esboçara em esperança, foi-se descolorindo, rasgando, inviabilizando o diálogo antes tão fluido e deslizante. Lembro que outrora, o som da música assentia ao gesto dos meus dedos soltando a harmonia, enchendo o espaço em que as nossas vontades se uniam e os nossos olhos, prescrutando a mesma paisagem, procuravam o horizonte em que ambos nos perdíamos. E sem darmos por isso, o ruído instalara-se e a desconfiança desacertara os nossos passos. O presente apresentava-se incerto, não convergindo já a vontade de seguir o mesmo caminho e assim nos separávamos, em sentidos tão diversos! Já não sentia o verde de esperança, reluzindo ao sol em reflexos metalizados. Agora era o tom cinzento, de lua desmaiada num céu aveludado, que me acenava em sorrisos deslumbrados.
Porque, enquanto nos perdíamos, fui desejando outro olhar que se ligasse ao meu, outros sons combinando melodias a gestos esboçados.
Não nos traímos, fomos recusando o mesmo caminho.
E hoje mesmo, decidi outro percurso. Mas digo-te adeus com antiga ternura. Sete dias, é um tempo mágico, toma esse tempo e procura, também, o teu novo caminho.

Troquei o rodinhas verde, Ford Fiesta, por uma carrinha Citroen Xsara, cinzento chumbo.



21.9.04

marguerita


Qualquer coisa no copo me atraía o olhar. Lembrei-me de um hábito que me vinha, inexplicavelmente, da infância. Quanto mais fino era o copo, mais provável era partir-se na minha boca. Não era premeditado, antes um impulso incontrolável apenas sentido no momento em que o cristal tocava os lábios. E era, sobretudo, um momento embaraçoso. Lembro-me de um dia, em visita a uma família amiga, depois de uma brincadeira de toca-e-foge, entrei na cozinha para matar a sede. Quando a minha mãe se apercebeu, já o lindo copo de cristal transparente, com barra trabalhada a azul se partia, lenta e silenciosamente. Sob o olhar imperdoável da dona da casa e o olhar enfurecido da minha mãe, percebi que algo de mau acontecera quando eu, afinal, apenas acolhera a sensação que o toque do vidro me comunicara.
A pouco e pouco, o domínio desta tendência irresistível, acompanhou o correr dos anos. E desapareceu.
O travo da marguerita pedia-me o roçar dos lábios na superfície forrada a branco, em pequenas partículas que se desfaziam na resistência oferecida aos dentes. O líquido, sorvido em pequenos impulsos, enchia a boca, e o sabor escorria pela garganta, em ondas provocantes de calor. Até que o copo se esvaziou, deixando a descoberto a sua nudez desamparada. Foi nesse ponto que a vontade de prender o vidro transparente se tornou irresistível e os meus lábios procuraram as formas, em ânsia crescente de ouvir o som cristalino que os dentes, em carícia suave, despertariam no rebordo já em quebranto.
Perante o espanto do meu acompanhante, o copo voltou a quebrar-se, sem que uma única gota de sangue escorresse da minha boca. Apenas o brilho do baton, avivado pela bebida húmida e terna, aflorou aos meus lábios
.

20.9.04

traços


[Praga, Praça Velha]

Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.

(S. Freud)

19.9.04

poesia


[G. Klimt, La poesie ]

Inclinado en las tardes tiro mis tristes redes
A tus ojos oceánicos.

Alli se estira y arde en la más alta hoguera
Mi soledad que da vueltas los brazos como um náufrago.

Hajo rojas senãles sobre tus ojos ausentes
Que olean como el mar a la orilla de un faro.

Sólo guardas tinieblas, hembra distante y mia,
De tu mirada emerge a veces la costa del espanto.

Inclinado en las tardes echo mis tristes redes
A ese mar que sacude tus ojos oceánicos.

Los pájaros nocturnos picotean las primeras estrellas
Que centellean como mi alma cuando te amo.

Galopa la noche en su yegua sombria
Desparramando espigas azules sobre el campo.

(
Pablo Neruda)

Levanto-me de noite e a casa, adormecida, liberta-me os passos, mantendo o velho pacto de permanecer silenciosa. No escuro, percorro os espaços guiando-me pelas sombras, evitando a claridade que se estende, na noite, lá fora. Entendimento que se foi construíndo ao longo do tempo, em que nenhuma de nós, eu e a casa, traíu os movimentos.
Como os meus pensamentos e as palavras. Não em poemas, que não os saberia construir, mas no balançar de gestos encadeados caminhando apenas em rotas de ideias, enchendo barcos de palavras. Que os transportam, sem os aprisionar.

18.9.04

ecos de um baile


De cada vez que Vronski lhe falava, os olhos de Ana brilhavam alegres, e um sorriso de felicidade aflorava-lhe aos lábios vermelhos.

Dir-se-ia que fazia tudo para não deixar transparecer esses indícios de alegria, que se manifestavam apesar de tudo.

(...) Ana sorria e o seu sorriso comunicava-se a Vronski.

(...) E Ana não pôde deixar de responder com um sorriso, não às palavras de Vronski, mas aos seus olhos enamorados.
(Leão Tolstoi, Ana Karenina )

[fotos de Francisco Botelho, Hermitage, S. Petersburgo]

17.9.04

O Plátano


(Matisse, Le platane )

Tinha sido um convento, remodelado apenas ligeiramente, acrescentado de uns pavilhões em zona recatada, onde ficavam as camaratas das jovens estudantes. Isso fora antes, agora era apenas o Externato de Santa Catarina.
Ficava na plataforma a seguir aos velhos degraus de pedra, na ala mais antiga. Aí já nada crescia, o terreno ficara abandonado, e o plátano centenário, erguia-se solitário, espreitando os jogos no campo mais abaixo. Abarcava a sombra de risos juvenis, numa roda de segredos e sussurros em resmalhar de saias, crescendo ainda sobre o telhado da grande cozinha conventual, dependência esquecida em jeito de arrumos.
Junto à escadaria de madeira, no segundo piso, situava-se a capela. Em semi-penumbra, os bancos escuros serviam de refúgio nas escapadelas às aulas menos apetecidas. Cortinados de veludo azul ferrete protegiam as portas e amorteciam os ruídos. Nesse ambiente difuso a sua presença destacava-se. De porte majestoso, cobria o corpo de vestidos, saias e blusas, terminando, invariavelmente pelo casaco comprido, Inverno ou Verão. Aconchegando os cabelos brancos, o chapeuzinho de feltro, amarrotado e preso por um pregador no lado esquerdo. Na mão, a trouxa de roupa que teimava em levar quando, ao romper do dia se perdia pelos campos, fechada no seu mundo de demência, que a libertava de um sofrimento de perda extrema. E regressava, coberta de flores campestres, como personagem de um bailado romântico. Habituei-me a chamar-lhe Giselle.
Memória da minha infância, vagueava pelas ruas entrando em cada casa e as portas abriam-se, silenciosamente, deixando-a pairar como sombra transparente a quem ninguém perturbava ou ligava sequer.
Como o velho plátano. Permanecia e acolhia-nos e nem dávamos por isso.

16.9.04

tempo


[A. Mucha]

A idade é uma coisa que a gente vai tendo sem dar por isso. Ainda estamos habituados a ansiar por "Quando eu for grande" e já temos que recomeçar a dizer "Quando eu era jovem..."
( Teresa Rita Lopes, Jogos, versos e redacções )

15.9.04

tai chi chuan


Ausentou-se durante um mês. Abandonou-me. Desligou-se do exterior e voou para longe, sítios imprecisos, onde a mente se perde e o corpo flutua. Diluiu-se nas nuvens, abraçou as ramadas das árvores, colou-se ao salto do tigre, delineou a flor em gestos suaves, acariciou o universo.
Esteve em meditação.

Ontem voltou. Cumprimentou, olhar vago, respiração ritmada. Alcançou as nuvens, tocou a terra, recolheu a aragem nas folhas. Cingiu-se à natureza, complementou-se.

Hoje, o meu corpo ressente-se do seu amplexo. Das saudades, que se irão matando...

14.9.04

tango


Saíra mais cedo na noite anterior. Queimava-a o desejo de outro encontro esperando na sombra de um sentimento ainda por definir. Hoje, o som de um tango enchia o espaço, afagando o seu reflexo no espelho. Girou em meia volta, permitindo o amplexo de notas soltas, certificando-se da perfeita simbiose entre o tecido do vestido e a pele tensa e ansiosa. Olhou a mancha gritante, de palavras emudecidas, palpitando apenas no respirar apressado de lábios entreabertos, delineados em expressão enigmática que nem ela conseguia entender. Como se o corpo lhe fosse estranho, respondendo a uma vontade exterior, ou a um chamamento intenso aninhado num recôndito abandonado até esse momento.
Abriu a porta e entrou. O ritmo estonteava em passos arrebatados seguindo os pares, cruzando olhares, inflamando os corpos no jogo de entrega e repúdio. Era assim, o tango. Introduzia-se no sangue fazendo latejar o compasso e a melodia invadia o corpo embriagando, soltando a paixão já latente nos movimentos iniciados.
De relance, apercebeu-o ao fundo da sala, chapéu inclinado espreitando o sorriso nervoso, aflorando em expectativa. Atravessou a distância, pisando as notas, recolheu a rosa pendurada na lapela, prendendo-a na boca. E deixou-se enlaçar.

13.9.04

na despedida...


(Dicksee, Romeo & Juliet )

(...) deixa que o vento corra, coroado
de espuma, que me chame e me
busque galopando na sombra,
enquanto eu, mergulhado nos teus
imensos olhos, nesta noite imensa,
descansarei, meu amor...

(Pablo Neruda)

Por vezes, "até já" tem sabor a eternidade. Mas, também por vezes, não o sabemos...

11.9.04

as ceias da czarina...


(fotos de Francisco Botelho, Peterhof )

Os belissimos interiores de Peterhof, em S.Petersburgo.

desencontros


"Passamos metade da vida à espera daqueles que amamos e a outra metade a deixar os que amamos"

[Victor Hugo]

9.9.04

alquimias



Alquimia de emoções. Cada uma elege a cor em que se espelha e em que se espraia. Suaves, fortes, vibrantes, explosivas. Repartem o espaço distribuindo tonalidades que se reúnem em cor nenhuma, apenas em transparências. E provocam emoções quando prendem o olhar num percurso dirigido mas também de eleição. Quase o desdobrar de momentos de uma vida, esquecendo uns, avivando outros, em sequências nem sempre lineares.
Irisados de outonos, azuis gelo de invernos, esmeraldas de primaveras, rubros e alaranjados de verões. Tons cálidos de ternuras, âmbares de exotismos, sanguinolentos de paixões, verde mar de carícias, turquesas de ciúmes, azuis de intranquilidades, nacarados de aquietações.

A Sephora é um dos lugares luminosos que gosto de percorrer. Entrei. Saí com brilhos saltitantes nos meus passos e transparências de gestos em acenos.

8.9.04

e o teu, qual é?


(Belda, Optimist, Pesimist )

...ou como uma caneca de cerveja define estados de espírito. E o teu, qual é?

7.9.04

LA tarde


[Silva, Antes de La Lluvia ]

LA TARDE SOBRE LOS TEJADOS

LA tarde sobre los tejados
cae
y cae...
Quién le dio para que viniera
alas de ave?

Y este silencio que lo llena
todo,
desde qué país de astros
se vino solo?

Y por qué esta brurna
-plúmula trémula-
beso de lluvia
-sensitiva-

cayó en silencio -y para siempre-
sobre mi vida?

(Pablo Neruda)

6.9.04

o senhor padeiro





Não sei como se chama. È apenas o senhor padeiro. Entroncado, braços risonhos e fortes, bigode coroando a expressão paciente do olhar.
Desde bébé que te levo comigo à padaria onde compro o pão, mole e fumegante. Já conheces o espaço, enfarinhado pelas mãos que pesam todos os ingredientes e os lançam no enorme recipiente que tudo mistura e divide em pequenos montinhos onde apetece espetar o dedo. O jeito final é a mão do padeiro que o dá, colocando no grande tabuleiro as bolinhas que se adivinham como promessas gostosas.
Lembro-me dos teus olhinhos, sempre presos no movimento dessas mãos, sorrindo ambos na cadência da tarefa. Esses braços são-te familiares. Porque um dia, já conquistada a confiança, elevaste-te compartilhando o rastro da farinha e o suporte franco desse colo.
Aprendeste como a massa, redondinha e branca, se transforma no pão crestado e quente. Nos seus braços visitaste esse espaço mágico trazido pelos campos de trigo.
Ontem fomos lá. E o senhor padeiro, como lhe chamas, recebeu-te com o sorriso carinhoso que sempre desponta para ti. Mostraste o desenho de flores no braço, em estampagem fresca e contaste as novidades que apreendes em cada dia. Falaram do Miguel, menino como tu, que sonha ser padeiro como o avô. E, já sábia dos segredos aprendidos, apontaste-me tu, todos os passos dessa viagem de magia.

5.9.04

canção de embalar para os meninos de Beslan

O meu menino é d'oiro
É d'oiro fino
Não façam caso
Que é pequenino
Não façam caso
Que é pequenino

O meu menino é d'oiro
D'oiro fagueiro
Hei-de levá-lo
No meu veleiro
Hei-de levá-lo
No meu veleiro

Venham aves do céu
Pousar de mansinho
Por sobre os ombros
Do meu menino
Do meu menino
Do meu menino

Venham comigo venham
Que eu não vou só
Levo o menino
No meu ternó
Levo o menino
No meu ternó

(Zeca Afonso)

embriaguez de medronho


É aquele travo agri-doce que nos faz crescer o desejo de saborear, primeiro em pequenas manchas na ponta dos dedos, depois em colheres cheias, o aroma perfumado das ameixas. O tempo de iniciar as compotas, de as armazenar para o Inverno que se aproxima, de retê-las em frascos transparentes, a luz retirando colorações quentes, vibrantes, a um Verão que se despede lentamente.
O mercado e a bancada de frutas da Fernanda. Face redonda, prazenteira, de quem desponta quando o sol ainda não se levantou para colher, da terra, as promessas regadas pela chuva. Desta vez, foi o sorriso das ameixas, que se vai demorando em tempo já de despedida, rubro, intenso de polpa a que a boca não nega o afago. Depois, são as mãos que mergulham no suco generoso, rompendo a pele, desfazendo em volúpia, a carnação do fruto que se oferece. A junção do açúcar, mancha branca alastrando em rosados cada vez mais intensos até se diluir completamente, em união perfeita. E o pauzinho de canela, em toque exótico, quebrando os excessos da doçura.
E nesse namoro dos aromas, o olhar vigia, ciumento, não vá a paixão escondida pela espuma, transbordar, expandir-se pela casa. Nesse ponto, em que o jogo apaixonado se intensifica, a embriaguez invade a união dos elementos, ofertando-nos esses arroubos, guardados em espaços cristalinos, para momentos em que a alma se resfria. É o tempero da aguardente de medronho, acariciando as transparências que os acolhem nos excessos.

4.9.04

num dia de chuva...


nada como ficar em casa, perto da lareira e aconselhar-te a fazeres isto:

(...) lança
Um olhar num livro que amas. Começa assim
Um dia belo e útil

(Bertolt Brecht)

3.9.04

a ilha



(fotos de Francisco Botelho)

És-me desconhecida. As memórias que de ti tenho vêm-me por herança de outras memórias que hoje, permanecem apenas dentro de mim. No entanto, não me podes ser estranha. Aí fui gerada e num pontinho do teu ser a minha vida teve início. Apreendi os teus sons, a tua voz, a tua solidão, mesmo antes de existir.
Olho-te e pareces-me enigmática, como o meu próprio ser. Impenetrável através do olhar que te observa do exterior. Teria sido necessário ter convivido contigo para aprender o teu respirar, sentir o teu pulsar. Essa vivência não a tive.
Mas sei que, antes de mim, levaste felicidade, harmonia a quem me deixou em herança estas memórias. Porque o início é sempre o lugar intocável, em que a vida não teve ainda tempo de gravar sulcos, feridas, assim cresceu o meu pudor em percorrer-te, levantando os risos, as vozes, pertença única de quem, em ti, foi tão feliz.

Parabéns, Sara!


São atrasados, eu sei. Só ontem li que fazias anos. Um ramo de flores campestres e..."uma casa no campo", ao fim do dia. Muitas, muitas felicidades, Sarita!


2.9.04

Insatisfação

(...) E é sempre melhor o impreciso que embala que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

[Álvaro de Campos]

Que me toma nesta tarde embrulhada de chuva? Apenas o gosto de chá preto, em chávena debruada a ouro. Requintes de princesa em tempo outro, roubando títulos, moi, moriana, reine de nulle part.
O espírito do lugar galgando o meu pensamento.

1.9.04

Chávena de café

O entardecer perdeu a brisa cálida, saborosa, convidativa a percursos descansados. Dei por isso, outro dia, no desfazer de passos matinais, embrulhando os pensamentos nas voltas da baixa citadina. O calor, habitualmente acomodado nas fachadas dos edifícios pombalinos, não acolhia quem passava.
Entre a procura de um agasalho que me aconchegasse o corpo e a alma, e a escolha de um abrigo onde o odor do café quente transformasse o arrepio em bem-estar, hesitei. Seria, la storia del café ou o Martinho da Arcada? Uma sombra, cosida com as paredes, passou por mim e decidiu.
Sob as velhas arcadas o Café, grande de significado mas pequeno em superfície, rebrilhava ainda aos últimos raios de sol, em reflexos coloridos nos vidros das portadas. O degrau, passaporte para o imaginário, transportou-me, Entre o sono e sonho / Entre mim e que em mim / É o quem eu me suponho (..)
Descanso na mesa de tampo em pedra onde repousa um frenesim de folhas rabiscadas. Em frente, a sombra define-se, espreita-me, porém, o meu olhar perde-se no horizonte de azulejos alinhados na parede ao fundo. Mas o olhar, de estar olhando / Onde não olha, voltou / E estamos os dois falando / O que se não conversou (...). Lampejos de palavras, lembradas, não ditas, alinham-se em interrogações irresolúveis, Como é por dentro outra pessoa / Quem é que o saberá sonhar? / A alma de outrém é outro universo / Com que não há comunicação possível, / Com que não há verdadeiro entendimento. (...) E a solidão como sombra individual, não se desgarra, também porque não desejamos separarmo-nos dela, e o que queremos é sempre a meta que se desloca. Cobre-me um sentimento do inatingível, por rejeição, como se o meu espírito olhasse as coisas e dissesse, Quero-as só quando não as possa haver. / Que hei-de fazer das coisas / Que qualquer mão pode colher?
Acabo o café, deliciando-me no último sorvo e saio para a noite. Ouço o som dos meus pensamentos, em protesto teimoso, Não quero a noite senão quando a aurora / A fez em ouro e azul se diluir. / O que a minha alma ignora / É isso que quero possuir.

As sombras diluíram-se, aconchego-me ao calor do corpo que a chávena de café aqueceu e dirijo-me ao barco.
Nota: as palavras em itálico foram retiradas de poemas de Fernando Pessoa